
Imunobiológicos: uma nova era na terapêutica
Muitos avanços têm sido alcançados na terapêutica nas ultimas décadas. Entre estes avanços, o desenvolvimento de terapias imunobiológicas talvez seja uma das mais importantes, principalmente no uso de anticorpos contra proteínas endógenas
Muitos avanços têm sido alcançados na terapêutica nas ultimas décadas. Entre estes avanços, o desenvolvimento de terapias imunobiológicas talvez seja uma das mais importantes, principalmente no uso de anticorpos contra proteínas endógenas. Com certeza, a imunoterapia desenvolveu-se a partir da descoberta da estrutura dos anticorpos e do desenvolvimento da tecnologia de hibridomas, que possibilitou a produção de anticorpos monoclonais. No início, a maioria das tentativas de se utilizar anticorpos na terapêutica foi na área de neoplasias, sem muito sucesso devido à baixa tolerabilidade. Os anticorpos apresentavam uma meia-vida muito baixa, devido à formação de imuno-complexos, já que eram originários de outra espécie (camundongos). Este ramo da ciência avançou e hoje os anticorpos de camundongos (sufixo omab) foram substituídos pelos anticorpos monoclonais quiméricos (sufixo ximab) ou humanizados (zumab). Mais recentemente, a tecnologia do hibridoma tem ficado para trás e a tecnologia do DNA recombinante vem proporcionando o desenvolvimento dos anticorpos humanos (mumab), uma nova revolução nessa área.
Atualmente a imunoterapia invadiu todas as áreas da terapêutica e a lista de imunobiológicos não para de crescer, principalmente para uso em doenças inflamatórias e auto-imunes, como a artrite reumatóide e a psoríase. Abaixo, descreveremos alguns dos mais recentes anticorpos monoclonais lançados no mercado (para consultar a lista completa: http://en.wikipedia.ora/wiki/List of monoclonal antibodies).
Anticorpos humanizados: o centro das atenções
O ano de 2009 foi de avanço para a indústria bio-farmacêutica no que se refere às drogas imunobiológicas. Quatro anticorpos monoclonais (mabs) humanizados foram aprovados em 2009 para comercialização, representando o maior número de aprovações anual em mais de uma década. Anteriormente, o ano de maior aprovação de imunobiológicos havia sido 1998, quando a Genentech aprovou a Herceptina (trastuzumab, para o tratamento do câncer) e a Centacor teve aprovado o Remicade (infliximab, para o tratamento de doenças autoimunes).
Alguns recombinantes biológicos aprovados em 2009 (companhia/parceira Produto Indicação):
* Centocor Ortho Biotech - Simponi (mab humano específico para o TNF-a): Artrite reumatóide, artrite psoriática e espondilitis.
* Genzyme - Atryn (antitrombina III): Pacientes com coágulo no sangue devido à deficiência de antitrombina
* Fresenius Biotech e TRION Pharma - Removab (mab bi-específico (rato/murino) com uma região específica para EpCAM e outra para CD3): aprovado na Europa para o tratamento de paciente com ascite maligna com carcinomas positivos para EpCAM.
* Novartis - Illaris (mAb humano específico para IL-1f): síndrome periódica associada a criopirina.
* Centocor Ortho Biotech - Stelara (mab humano específico para subunidade p40 da 1L-12): psoríase
*GSK- Arzerra (mab humano específico para CD20): leucemia linfocítica crônica.
* Dyax - Kalbitor (inibidor da calicreina plasmática): angicedema hereditário.
Neste contexto farmacêutico, o impacto da alta eficácia terapêutica com imunobiológicos se tornou de grande importância para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Baseado no sucesso da terapia com anti-TNF-a, empresas como a Johnson & Johnson (subsidiária da Centocor) investiram em tecnologia e em abril de 2009, o Simponi
(golimumab), droga da linha dos anti-TNF-a, foi aprovada para comercialização. Enquanto o infliximab é um anticorpo monoclonal quimérico (com regiões de camundongo e humano), o golimumab é um anticorpo monoclonal totalmente humanizado. Esta peculiaridade do Simponi reduz a probabilidade de produção de autoanticorpos contra a droga, o que ocorre comumente quando o paciente é tratado com o infliximab.
A liberação para comercialização destes novos fármacos varia entre países. Um exemplo recente é o caso do Actemra (tocilizumab; inibidor da interleucina-6). Esta droga, desenvolvida pela Genentech em parceria com a Roche, foi aprovada em janeiro de 2009 na União Européia para o tratamento da artrite reumatóide e tem sido comercializada pelo nome Roactemra, porém o tramite de aprovação nos Estados Unidos percorreu o ano de 2009 e, até 11 de janeiro de 2010, a droga ainda não havia chegado no último estágio para aprovação.
Todos os anticorpos aprovados em 2009 estão sendo comercializados por grandes empresas farmacêuticas. Um caso curioso é a do Ilaris (canakinumab), um inibidor de interleucina-1P, que foi totalmente desenvolvido na sede da Novartis Institutos de Investigação Biomédica (NIBR), em Boston. O Ilaris não é uma droga pioneira, pois dois outros inibidores de IL-18 já existiam: 1) O Kineret (anakinra), uma versão recombinante da proteína que ocorre naturalmente, antagonista do receptor da IL-1, originalmente desenvolvido pela Amgen e que agora é comercializado pela Stockholm-based Orphan Biovitrum e; 2) o Arcalyst (rilonacept) que é uma proteina de fusão da IL-1 e funciona como um receptor solúvel, comercializado pela Regeneron Pharmaceuticals. Entretanto, o Ilaris é o primeiro anticorpo a ser desenvolvido com sucesso contra a IL-1f. Ele é muito específico e tem uma meia-vida longa, podendo suprimir o efeito da IL-1 por muitos meses após uma única administração (ver alerta nesta edição).
O Ilaris obteve aprovação inicialmente para o tratamento da síndrome auto-inflamatória familiar da exposição ao frio e da síndrome de Muckle-Wells, duas das três doenças do sistema imune inato conhecidas coletivamente como síndromes periódicas associadas à criopirina. A condição é causada por uma mutação autossômica dominante no gene NLRP3, que codifica a criopirina, que é um ativador do inflamossoma, um complexo multi-protéico envolvido na regulação da resposta inflamatória. A mutação resulta em uma superprodução danosa de IL-1B. O Illaris também tem potencial terapêutico na artrite idiopática juvenil sistêmica e em outras doenças mais comuns, tais como gota, doença pulmonar obstrutiva crônica e diabetes tipo 2.
A Centocor Ortho Biotech, afiliada da Johnson & Johnson, reivindicou recentemente a aprovação de dois outros imunobiológicos, um dos quais o Stelara (ustekinumab), que é uma droga pioneira. Ela inibe as citocinas pró-inflamatórias IL-12 e IL- 23 por ligação à subunidade p40 comum às duas proteinas. O Stelara impede a ligação da 11-12 e IL-23 à cadeia IL-12 B1 do receptor, na superfície celular e consequente ativação de suas respectivas cascatas imunológicas. As duas cascatas são distintas, pois em última análise as subunidades IL-12 p35 e IL-23 p19 ligam-se a diferentes receptores e ativam diferentes vias inflamatórias. A IL-12 está associada a uma resposta T-helper (Th) tipo 1 (Th1), enquanto a IL-23, que vem sido descrita como a principal citocina inflamatória na doença de Crohn e na psoríase, está associada a uma resposta Th17. O Stelara recebeu aprovação inicialmente como uma droga para tratamento da psoríase de placa, mas os estudos na doença de Crohn e artrite psoriática também estão em andamento. No entanto, a molécula não conseguiu demonstrar eficácia na esclerose múltipla e seu perfil de segurança em longo prazo ainda não é bem compreendido.
A taxa de entrada de anticorpos em estudos clínicos aumentou dramaticamente desde o final dos anos 90. Naquela época, menos de 20 anticorpos foram introduzidos na clínica, enquanto cerca de 40 anticorpos estão em uso no mercado atualmente. O panorama de desenvolvimento clínico atual de drogas biológicas inclui 240 anticorpos monoclonais e 120 proteínas, em várias outras categorias, incluindo proteínas de fusão e versões de recombinação natural de proteinas plasmáticas. Com base nas taxas de sucesso anteriores de aproximadamente 20% e em prazos de desenvolvimento típicos de sete a oito anos, estima-se que 48 anticorpos monoclonais poderão chegar ao mercado. Esta é uma questão em aberto.
Há anticorpos monoclonais para tratamento da dor?
Até o momento nenhum anticorpo monoclonal está aprovado para o tratamento específico de dores crônicas. No entanto, o uso de anticorpos monoclonais já aprovados, por exemplo, contra TNF-a em doenças auto-imunes como a artrite reumatóide, bem como contra IL-B na gota (ver alerta desta edição), vem apresentando eficácia em reduzir a dor associada a essas doenças. Recentemente, estudos pré-clínicos vem investigando o possível efeito benéfico de anticorpos monoclonais contra o fator de crescimento de nervos (NGF), em modelos de dores crônicas de vários tipos. Os resultados destes estudos demonstraram que estes anticorpos apresentam efeito analgésico considerável. Baseado nesses estudos pré-clínicos, estudos clínicos estão em andamento utilizando o tanezumabe (anti-NGF) para o tratamento de dores crônicas. Resultados já divulgados de fase I e II demonstraram efeito benéfico em três tipos de dores crônicas, como dor crônica nas costas, osteoartrite e cistite intersticial (Tive et al., 2010). No momento a Pfizer, empresa responsável pelo desenvolvimento do tanezumabe, está recrutando participantes para um estudo clínico de fase III para tratamento da dor em osteartrite.
A melhor forma é ter cuidado: risco x benefício x custo
Apesar de estar revolucionando a terapêutica, essa poderosa ferramenta não escapa do principal mal de todos os fármacos: os efeitos adversos indesejáveis. Vários estudos vêm relatando efeitos adversos com a utilização de anticorpos monoclonais, inclusive edições anteriores do DOL trazem discussões sobre o assunto. Entre os efeitos indesejáveis observados, podemos destacar os associados à utilização de anticorpos contra o TNF-a. O mais relatado é o aumento na susceptibilidade a doenças infecciosas como tuberculose. Além disso, em pacientes que apresentam insuficiência cardíaca, o tratamento com anti-TNF-a pode piorar o quadro clínico. Na edição desse mês do DOL trazemos um alerta que relata mais um efeito adverso associado ao uso de anti-TNF, uma neutropenia significativa. No final do ano passado, o anticorpo monoclonal contra o receptor da IL-6 (tocilizumab) foi introduzido no mercado, inclusive no Brasil, para uso na artrite reumatóide. O uso desse anticorpo também está associado a um aumento no risco de desenvolvimento de infecções sérias e, além disso, um considerável aumento nas concentrações sistêmicas de enzimas hepáticas, sugerindo uma possível disfunção desse órgão. Assim, acreditamos que o monitoramento criterioso dos pacientes que utilizam esses anticorpos pode evitar muitas complicações futuras.
Outro fato de extrema importância quando se fala da terapia com anticorpos monoclonais é o custo. Na grande maioria dos casos os custos são muito elevados, limitando muito a utilização. O custo com a terapia com o tocilizumab, no Reino
Unido, sai por mais ou menos 10.000 £ anuais, o que em Reais daria mais ou menos R$ 30.000,00 por ano, ou seja, bem elevado. De qualquer maneira, a tendência do preço é cair, uma vez que a tecnologia para desenvolvimento de novos anticorpos monoclonais está muito adiantada e a velocidade com que eles são desenvolvidos e a agilidade nos processos de desenvolvimento tem diminuído muito os custos, o que certamente refletirá no preço das terapias.
http://www landesbioscience.com/journals/mabs/about&background New BLA Calendar Year Approvals As of December 31, 2009
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Tive L, et al. Tanezumab, a humanized anti-nerve growth factor antibody, in the treatment of three chronic pain types. AAPM 2010; Abstract 151.
* Professor Doutor do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP ** Doutor em Farmacologia pela FMRP-USP, atualmente trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)








