Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Edição de Março de 2011 · Nº 140

Dor crônica e trabalho

A ocorrência de dor crônica na população mundial é crescente. Este fato é decorrente dos novos hábitos de vida, da maior longevidade do indivíduo, do prolongamento de sobrevida dos doentes com afecções clínicas naturalmente fatais, das modificações do ambiente e, provavelmente, do reconhecimento

Esse texto foi baseado no trabalho de conclusão de curso do aluno Reinaldo Oléa Corrêa Filho, que cursou pós-graduação em perícia médica

A ocorrência de dor crônica na população mundial é crescente. Este fato é decorrente dos novos hábitos de vida, da maior longevidade do indivíduo, do prolongamento de sobrevida dos doentes com afecções clínicas naturalmente fatais, das modificações do ambiente e, provavelmente, do reconhecimento de novas condições álgicas e da aplicação de novos conceitos que traduzam seu significado. A prevalência de dor crônica varia entre 7% a 40% em diferentes países, e se apresenta de modo intenso e persistente em 8% dos indivíduos.

As algias crônicas tornaram-se um ônus para os serviços médicos e companhias de seguros. Nos E.U.A. aproximadamente 89 bilhões de dólares são gastos anualmente para tratamento, compensações trabalhistas e litígios. Segundo um inquérito populacional realizado no Brasil, mais de 30% da população julga que a dor crônica compromete as atividades habituais e mais de 75% consideram que esta situação patológica limita as atividades recreacionais, relações sociais e familiares. Devido à dor, cerca de 50% a 60% dos doentes tornam-se parcial ou totalmente incapacitados, de maneira transitória ou permanente, gerando estresse físico e emocional significativos para o paciente e seus familiares constituindo, portanto, um fardo econômico e social.

A dor é um sintoma multidimensional complexo, determinado não apenas por uma lesão tecidual identificável ou visível ao examinador. Sua ocorrência e cronificação dependem da experiência dolorosa pessoal prévia, como estímulo e intensidade dos sinais nociceptivos, associado ao componente afetivo, crença e motivação em um determinado espaço de tempo. Frequentemente, a dor pode não ser visualizada, definida, ou percebida pelo examinador, e em muitos casos a queixa álgica pode não justificar o grau de incapacidade ou ser detectada ao exame físico. É importante salientar que o comportamento doloroso, o sofrimento e o estresse pessoal e familiar são componentes de difícil distinção com a dor referida.

Vários métodos são utilizados para mensurar a percepção e sensação da dor, que não é qualidade simples, única e unidimensional, mas sim, uma experiência que comporta aspectos afetivo-emocionais. A dor crônica é uma enfermidade que se alastra nos dias atuais, acometendo pessoas economicamente ativas, de tal maneira que é necessário aos médicos peritos o conhecimento desta patologia para atestar a capacidade ou incapacidade para o trabalho, assim como detectar fatores desencadeantes de dor e estressores no ambiente laboral. É importante que esta questão seja abordada e difundida, para incentivar o conhecimento a respeito da doença “dor crônica”, com ênfase no entendimento de suas bases neurofisiológicas

Visto que a dor crônica apresenta essa característica multidimensional, intimamente ligada a fatores emocionais, sociais, e culturais, faz-se necessário maior sistematização das avaliações periciais através de protocolos, assim como, introduzir questionários com indicadores psicométricos nos exames periciais, o que leva a maior confiabilidade em excluir ou inserir uma pessoa no mercado de trabalho, possibilitando tempo para recuperação e tratamento do doente e/ou excluindo os possíveis ganhos secundários e seus gastos adicionais aos empregadores e governos. É necessário abordar essa questão, assim como realizar estudos sobre a avaliação de dor nos exames periciais, tão escassa até o momento.

* Médica especialista em anestesiologia com certificado de atuação em dor crônica pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Atua no serviço de anestesia e clínica para tratamento de dor do HC-FMRP. Aluna de pós-graduação do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor

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