
Ano Global IASP 2022 - traduzindo conhecimento sobre dor à prática clínica
Todos os anos a International Association for the Study of Pain (IASP) lança campanha para o desenvolvimento da ciência na temática da dor, sob a denominação Global Year. Em 2022, o tema é Translating Pain Knowledge to Practice. Esse
Ano Global IASP 2022 - traduzindo conhecimento sobre dor à prática clínica Lucas Magedanz*, Mariana Lôbo Moreira* e Fabiane Hiratsuka Veiga de Souza**
Todos os anos a International Association for the Study of Pain (IASP) lança campanha para o desenvolvimento da ciência na temática da dor, sob a denominação Global Year. Em 2022, o tema é Translating Pain Knowledge to Practice. Esse tema pretende dar enfoque em como produzir resultados efetivos a partir dos avanços e descobertas científicas alcançadas nos últimos anos e que, por ventura, ainda estão pouco difundidas ou utilizadas. Nas últimas décadas, a ciência baseada em evidências tem se fortalecido, indicando a importância das pesquisas científicas para definir quais tecnologias demonstram benefícios reais e, portanto, deveriam ser estimuladas e adotadas. Apesar disso, estudos apontam que o tempo médio para uma tecnologia estar disponível à prática cotidiana leva, em média, 17 anos [1]. Dessa forma, e considerando a necessidade de diminuir o lapso temporal entre as descobertas e sua incorporação, é necessário acelerar esse processo. Nesse intento, diversas estratégias são adotadas, como a “Tradução de Conhecimentos” e a “Ciência da Implementação". A primeira é definida como a síntese, o intercâmbio e a aplicação de novos saberes por pessoas expoentes e interessadas (stakeholders) em acelerar os benefícios da inovação global e local, fortalecendo os sistemas de saúde e a melhoria da saúde da população [2]. Já a "Ciência da Implementação" tem sido utilizada para promover e aperfeiçoar a adoção e assimilação de práticas baseadas em evidências (PBEs), utilizando modelos de processo (frameworks) que possam ser replicados em diferentes cenários [3]. Ambas as técnicas têm sido amplamente empregadas na área da saúde. Nesse contexto, a IASP está divulgando diversos estudos de qualidade reconhecida com a finalidade de disseminar o conhecimento sobre a dor e aperfeiçoar a aplicação dessas descobertas. Entre os materiais disponibilizados, citam-se documentos com as metas e objetivos da campanha, fichas técnicas com conceitos fundamentais desenvolvidas por especialistas e entrevistas com os co- presidentes e equipe envolvida na campanha. Além disso, há uma série de informes e perspectivas com acesso liberado em estudos pré-clínicos e ensaios clínicos sobre os tratamentos da dor. Entre eles, destacamos um estudo australiano utilizando Olorinab (APD371), um agonista total altamente seletivo do receptor canabinoide 2, cujos resultados apontaram a efetividade do fármaco em reduzir a hipersensibilidade visceral aguda e crônica induzida por colite em roedores. Esse desfecho é altamente relevante considerando o impacto negativo na qualidade de vida dos pacientes com doenças intestinais inflamatórias, uma vez que aproximadamente 50% manifestam
dor crônica por mais de cinco anos [4]. Além disso, lembramos que as terapias convencionais disponíveis não controlam totalmente a doença em muitos pacientes, fato que reforça a necessidade de novos tratamentos [5]. Outro estudo apontado pela IASP é uma pesquisa israelense a respeito dos mecanismos relacionados à cronificação da dor neuropática central (DNC. Por meio de um acompanhamento longitudinal de pacientes com lesão medular aguda foi possível identificar diversos preditores para a DNC, antes de seu início. Isso, por sua vez, possibilitou o rastreamento dos pacientes em risco, e estabeleceu um tratamento preventivo, recuperando o equilíbrio pró-nociceptivo e antinociceptivo com a intenção de prevenir ou, até mesmo, mitigar a DNC [6]. Esse resultado evidencia uma alternativa para prática clínica, propondo uma nova perspectiva dentro das PBEs. Ressalta-se a importância da proposta estabelecida pela IASP para a difusão do conhecimento, favorecendo a implementação de descobertas clínicas relevantes e, possivelmente, diminuindo o desafio temporal para que os avanços alcancem a prática.
Referências: [1] Morris, Z. S., Wooding, S., & Grant, J. (2011). The answer is 17 years, what is the question: understanding time lags in translational research. Journal of the Royal Society of Medicine, 104(12), 510–520. [2] Pablos-Mendez, A., & Shademani, R. (2006). Knowledge translation in global health. The Journal of continuing education in the health professions, 26(1), 81–86. [3] Bauer, M. S., Damschroder, L., Hagedorn, H., Smith, J., & Kilbourne, A. M. (2015). An introduction to implementation science for the non-specialist. BMC psychology, 3(1), 32. [4] Castro, J., Garcia-Caraballo, S., Maddern, J., Schober, G., Lumsden, A., Harrington, A., Schmiel, S., Lindstrom, B., Adams, J., & Brierley, S. M. (2022). Olorinab (APD371), a peripherally acting, highly selective, full agonist of the cannabinoid receptor 2, reduces colitis-induced acute and chronic visceral hypersensitivity in rodents. Pain, 163(1), e72–e86. [5] Armuzzi, A., & Liguori, G. (2021). Quality of life in patients with moderate to severe ulcerative colitis and the impact of treatment: A narrative review. Digestive and liver disease: official journal of the Italian Society of Gastroenterology and the Italian Association for the Study of the Liver, 53(7), 803–808. [6] Defrin, R., Gruener, H., Gaidukov, E., Bondi, M., Rachamim-Katz, O., Ringler, E., Blumen, N., & Zeilig, G. (2022). From acute to long-term alterations in pain processing and modulation after spinal cord injury: mechanisms related to chronification of central neuropathic pain. Pain, 163(1), e94–e105.
* Docente da UnB - Universidade de Brasília ** Alunos de graduação e iniciação científica/extensão da UnB - projeto de extensão.









