
Pacientes com dor crônica e o risco de suicídio
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária, câncer de mama, guerras e homicídios. Segundo o relatório
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária, câncer de mama, guerras e homicídios. Segundo o relatório “Suicide worldwide in 2019”; cerca de 703 mil pessoas no mundo chegaram ao ponto final da ideação suicida e tiram suas próprias vidas em 2019, o que representa uma em cada cem mortes, indicando que o suicídio é uma das principais causas de morte e um problema de saúde pública mundial. Estudos têm apontado que indivíduos com dor crônica são duas a três vezes mais propensos a relatar a ideação suicida ou cometer de fato o suicídio [1,2]. Dor crônica é a dor que persiste ou se repete por mais de três meses. É uma condição frequente e substancialmente debilitante, que afeta até 20% das pessoas em todo o mundo. Embora geralmente seja desencadeada por um evento físico, como por exemplo uma lesão, é mantida por uma série de fatores físicos, psicológicos, sociais e emocionais que afetam sua duração, intensidade e impactos na vida do indivíduo. Dor crônica classifica-se em neuropática (decorrente de lesão nervosa), nociceptiva (decorrente de lesão tecidual) e nociplástica (associada a um sistema nervoso sensibilizado). Tais condições causam diminuição da função física e desequilíbrio emocional, bem como redução da qualidade de vida, afetando decisões de trabalho e vida pessoal em todos os níveis. São comportamentos associados à dor crônica o isolamento social, o afastamento das atividades laborais, mudanças na sexualidade, alterações na dinâmica familiar, desequilíbrio econômico, desesperança, sentimento de morte, dentre outros. A dor crônica interfere diretamente na funcionalidade do indivíduo, prejudicando a manutenção da sua própria autonomia. Com isso, o reflexo na qualidade de vida torna-se inevitável, uma vez que, além da dor crônica, as pessoas são forçadas a conviver com as suas incapacidades e dependências, reforçando a influência negativa sobre suas vidas [3]. Em 1999 pela primeira vez um estudo científico apontou que a dor crônica pode ser um fator de risco para comportamentos suicidas (pensamentos, planos, tentativas) e suicídio consumado [4]. Em 2006, um novo estudo demonstrou que indivíduos com dor crônica tem aproximadamente duas a três vezes mais risco de suicídio. A prevalência de tentativas de suicídio ao longo da vida é de 5% a 14% em indivíduos com dor crônica, sendo a prevalência de ideação suicida de aproximadamente 20%. Tem sido identificados fatores de risco para suicídio na dor crônica, e eles incluem o tipo, intensidade e duração da dor, e insônia. É proposto que fatores psicológicos, como sentimento de desamparo e desesperança em relação à dor, desejo de escapar da dor, catastrofização, evitação e déficits na resolução de problemas, também sejam importantes determinantes para desfechos de suicídio [4,5].
A elevada prevalência de suicídio em indivíduos com dor crônica, evidencia a necessidade de um atendimento sistematizado com uma equipe multiprofissional, atenta aos impactos da dor crônica na vida dos pacientes, valorizando suas queixas e implementando intervenções eficazes para solucionar ou minimizar o processo álgico crônico, focando em todas as dimensões da vida humana afetadas pela dor crônica. Ações que busquem evitar a consumação do suicídio por pacientes com dor crônica são essenciais, sendo fundamental que os profissionais envolvidos no tratamento destes pacientes estejam atentos ao risco aumentado de suicídio e adotem medidas preventivas. É importante que os profissionais envolvidos, adotem o hábito de durante o atendimento avaliarem o paciente de forma holística, englobando desde as questões clínicas sintomáticas até as condições biopsicossociais, desenvolvendo uma estratégia para detectar um potencial risco de suicídio. Além disso, medir rotineiramente a depressão e a ideação suicida em pacientes com dor crônica utilizando ferramentas validadas, como o Inventário de Depressão de Beck e o Inventário Breve de Dor, pode ser uma medida simples adotada pelos profissionais da saúde que acompanham esses pacientes. Em adição, inquéritos diretos sobre suicídio podem ser realizados pelo profissional perguntando: "Por causa da dor, você sentiu que a vida não vale a pena ser vivida?" Uma vez que algum indício de ideação suicida seja registrado, o paciente deverá ser encaminhado para avaliação e acompanhamento psiquiátrico [5,6]. Atualmente, o SUS disponibiliza atendimento para pessoas com sofrimento psíquico nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), onde atuam equipes multiprofissionais, que empregam diferentes intervenções e estratégias de acolhimento, como psicoterapia, seguimento clínico em psiquiatria, terapia ocupacional, reabilitação neuropsicológica, oficinas terapêuticas, medicação assistida, atendimentos familiares e domiciliares, entre outros. Para mais informações ligar para o 136 (disque saúde-ouvidoria do SUS) e se informar qual é o CAPS mais próximo, todo município possui este serviço gratuito. Por fim, caro leitor, caso você se identifique com o que foi discutido neste texto, é importante que busque ajuda dos profissionais de saúde que acompanham seu quadro clínico, solicitando encaminhamento para profissionais que possam contribuir para melhoria da sua saúde mental. Você pode ainda ligar para o 188, CVV - Centro de Valorização da Vida, onde poderá conversar com alguém habilitado para te acolher e apoiar, ajudando a sair de momentos de dúvida e sofrimento. Busque ajuda, você não está sozinho.
Referências: • Suicide Worldwide in 2019, Organização Mundial da Saúde. https://www.who.int/publications/i/item/9789240026643 • RACINE, Mélanie. Chronic pain and suicide risk: A comprehensive review. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, v. 87, p. 269-280, 2018.
• MILLS, Sarah EE; NICOLSON, Karen P.; SMITH, Blair H. Chronic pain: a review of its epidemiology and associated factors in population-based studies. British journal of anaesthesia, v. 123, n. 2, p. e273-e283, 2019. • FISHBAIN, David A. The association of chronic pain and suicide. In: Seminars in clinical neuropsychiatry. 1999. p. 221-227. • TANG, Nicole KY; CRANE, Catherine. Suicidality in chronic pain: a review of the prevalence, risk factors and psychological links. Psychological medicine, v. 36, n. 5, p. 575-586, 2006. • FISHBAIN, David A.; LEWIS, John E.; GAO, Jinrun. The pain suicidality association: a narrative review. Pain Medicine, v. 15, n. 11, p. 1835-1849, 2014
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