Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Edição de Março de 2007 · Nº 92

O uso de células-tronco no tratamento da dor

A permissão ou proibição do uso de células-tronco embrionárias está para ser definida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em votação que foi adiada para o início de abril. Por este motivo, ultimamente pudemos acompanhar muitas discussões a respeito

A permissão ou proibição do uso de células-tronco embrionárias está para ser definida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em votação que foi adiada para o início de abril. Por este motivo, ultimamente pudemos acompanhar muitas discussões a respeito da legitimidade do uso de células embrionárias em pesquisas. Esse debate tem gerado muita polêmica e dividido a opinião pública. Nós, da equipe DOL, acreditamos que esta discussão é necessária e esperamos contribuir, com este Editorial, para melhor esclarecer os leitores sobre a possível utilização de células-tronco no tratamento da dor.

As células-tronco podem ser obtidas tanto de indivíduos adultos quanto de embriões. A diferença, no entanto, é que as células-tronco obtidas de adultos encontram-se já comprometidas para a formação de apenas alguns tipos de células, em geral presentes no mesmo tecido de onde são retiradas, enquanto que as células-tronco embrionárias são bem mais versáteis e podem dar origem a qualquer tipo de célula de qualquer tecido. Existem alguns tipos de células, especialmente neuronais, que só podem ser obtidas através de células-tronco embrionárias. Para o tratamento da dor, existem estudos indicando a possibilidade de utilização dessas células retiradas tanto de adultos quanto de embriões.

A maior parte dos estudos com o uso de células-tronco no tratamento da dor foi realizada em modelos animais de dores crônicas, justamente aquelas menos responsivas aos tratamentos com antiinflamatórios e analgésicos convencionais, ou ainda, cujo tratamento é prejudicado pelos efeitos indesejáveis devido ao uso prolongado desses medicamentos. Esse é o caso da dor neuropática, da dor da artrite, das lombalgias, entre outras.

Na dor de origem neuropática, a lesão de nervos leva à morte de neurônios e à ativação de células da glia presentes no sistema nervoso. O tratamento deste tipo de dor é pouco responsivo aos analgésicos tradicionais. Um estudo realizado em camundongos utilizando o transplante de células-tronco embrionárias após a lesão do nervo indica que este tratamento pode ser uma alternativa para restabelecer a morfologia da medula espinal e diminuir a dor neuropática. Neste caso, parece que existe a necessidade da utilização das células embrionárias, porque outro estudo que utilizou células-tronco neuronais retiradas de animais adultos verificou que os animais apresentavam uma melhora na capacidade motora, mas passavam a ter hiperalgesia/alodinia nas patas que não haviam sido afetadas pela lesão do nervo. Aparentemente, isso acontece porque esses neurônios que foram transplantados crescem de forma errada e fazem conexões em locais indevidos. A maior parte dos estudos com transplantes de células-tronco na medula espinal busca o restabelecimento da mobilidade e sensibilidade dos membros que foram prejudicados por lesão medular, e os resultados são muito animadores, dando esperança àqueles que sofrem

com este tipo de paralisia. No entanto, os estudos em animais mostram que é necessário ter cautela na utilização destas técnicas na clínica para que os pacientes não sofram com a dor causada por um possível crescimento anormal dos neurônios. Daí a importância de que todos os procedimentos sejam muito bem avaliados em modelos animais antes de chegar à clínica de humanos.

Além da dor de origem neuropática, outras patologias que causam dor podem — futuramente ser tratadas por meio do uso de células-tronco. No caso da artrite, existem testes clínicos utilizando transplantes autólogos, ou seja, as células são retiradas e transplantadas no mesmo paciente. São retiradas células-tronco presentes na medula óssea que são transplantadas para as juntas afetadas pela artrite. Por algum motivo ainda não bem — compreendido, a presença destas células inibe a ativação de células do sistema imune, diminuindo a inflamação e a dor. Esta técnica já tem sido utilizada em diversas clínicas veterinárias nos Estados Unidos, que alegam que este procedimento é simples e que os animais apresentam uma melhora considerável. Infelizmente faltam estudos bem controlados que comprovem a eficácia do método.

Outra promessa que tem animado a comunidade científica, clínicos e pacientes, é a possível utilização de células-tronco mesenquimais, que são aquelas retiradas de adultos e que podem ser obtidas da medula óssea do próprio paciente, para a regeneração do disco intervertebral. A degeneração desse disco é uma causa importante das dores nas costas e pode levar à hérnia de disco. Os estudos com animais mostram que as células-tronco mesenquimais podem produzir as substâncias que compõem o disco intervertebral quando transplantadas e possivelmente refazer esta estrutura, que é importante para a absorção do choque e da pressão exercida sobre a coluna vertebral, principalmente na porção lombar.

Em resumo, são diversas as possibilidades de utilização clínica das células-tronco, tanto embrionárias quanto adultas. Além destas patologias citadas, existem muitas outras que podem futuramente ser tratadas com a chamada terapia celular. É o caso, por exemplo, da diabetes tipo |, que pode levar à dor por alterações nos nervos sensoriais, além das doenças neurodegenerativas, como o Mal de Parkinson e de Alzheimer, que podem não causar dor, mas causam muito sofrimento. Acompanhando a literatura científica, não podemos negar a utilização das células-tronco como possibilidade de novos e melhores tratamentos para diversas doenças. Resta agora pesar muito bem os prós e contras dos estudos com células de embriões humanos para melhor definir as políticas públicas de utilização destas células para pesquisa.

Jandial R, Aryan HE, Park ), Taylor WT, Snyder EY. Stem cell-mediated regeneration of the intervertebral disc: cellular and molecular challenge. Neurosurg Focus. 2008;24(3-4):E21;

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* Bacharel em Ciências Moleculares, Pós-Doutoranda do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP

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