
Ghostwriter - a Ciência em risco?
Escrever artigos, planejar palestras ou elaborar discursos em nome de outros é uma atividade muito comum, exercida em todo o mundo acadêmico. Conhecida como ghostwriting, esta atividade é, para diversas pessoas
Escrever artigos, planejar palestras ou elaborar discursos em nome de outros é uma atividade muito comum, exercida em todo o mundo acadêmico. Conhecida como “ghostwriting", esta atividade é, para diversas pessoas (o ghostwriter - ou “escritor- fantasma”, em uma tradução literal), um trabalho como outro qualquer. A grande dúvida em questão é: de uma maneira crítica, deve-se avaliar da mesma forma textos encomendados para “receberem” a autoria de terceiros apenas pelo prestígio e suposta credibilidade proporcionada por esse nome? Será que esta prática pode ser considerada ética? Assumir a autoria de um artigo do qual não se foi o autor pode trazer consegiências desastrosas como, por exemplo, influenciar os profissionais da área da saúde, beneficiando determinada companhia farmacêutica, a prescreverem um tipo específico de medicamento. Em suma, isso pode ter a significância, em certos casos, de um verdadeiro crime contra a população.
Neste exemplo infeliz, especialistas da área médica ou da área acadêmica aceitam assumir as informações contidas nos artigos, mesmo sem remuneração alguma, apenas pelo prestígio de ver seu nome publicado como autor de uma pesquisa da qual não fez parte, mas que de alguma forma o colocará em evidência, acrescentando mais brilho ao seu currículo. Porém, entre todas as questões morais envolvidas neste “jogo”, ressaltamos a mais temida: a omissão da ética por parte do pretenso “autor”, que se dispõe a assumir a paternidade do artigo por razões inaceitáveis no meio científico, além, é claro, da busca por prestígio acadêmico, o qual, por sinal, o mesmo não fez por merecer.
Assim, é desanimadora a observação de que casos de fraude no meio científico (especialmente na área da saúde) não são tão raros. A companhia farmacêutica multinacional Merk Sharp & Dome (MSD) realizou vários estudos sobre uma de suas drogas mais vendidas, contratando, em seguida, médicos de excelente reputação e prestígio para que colocassem seus nomes nos relatórios elaborados antes das publicações. Estamos nos referindo aqui ao fato ocorrido com o antiinflamatório não-esteroidal VioxxO, cujo princípio ativo é o rofecoxibe, retirado do mercado em 2004 (veja mais informações sobre esse fato em nossos Editoriais e alertas publicados em edições passadas do DOL). O Vioxx? era um dos fármacos mais vendidos antes que a MSD o retirasse do mercado, devido a evidências que o relacionavam ao aumento no risco de ocorrência de ataques cardíacos. No final do ano passado, a companhia fez um acordo de US$ 4,85 bilhões, com o qual solucionava dezenas de milhares dos processos movidos por pacientes que haviam tomado o medicamento ou por seus familiares.
Agora, foi revelado que os estudos sobre os efeitos deste medicamento foram alvos desta prática criminosa conhecida como ghostwriting. Criminosa por que, segundo o Dr. Joseph S. Ross, (da Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York), que avaliou detalhadamente diversos documentos da MSD, vários pontos sobre a autenticidade de grande parte das pesquisas publicadas pela indústria farmacêutica podem ser questionados. “Este fato chega a ser prejudicial para todas as pesquisas íntegras realizadas de modo conjunto entre o setor farmacêutico e o meio acadêmico”, afirma o Dr. Ross.
Por outro lado, é possível que a atividade desenvolvida pelos ghostwriters possa até ser benéfica para a sociedade moderna, de modo a prestar assessoria para pessoas que precisam manifestar seus pontos de vista e não têm tempo ou habilidade na redação para fazê-lo sozinhas. Porém, quando realizada com o intuito de usar pesquisadores ou professores de reconhecida credibilidade para assinar estudos científicos dos quais eles não foram autores, ainda mais se os resultados forem questionáveis, seu valor se confunde com uma tentativa de engodo.
Neste sentido, nós, membros da equipe DOL, acreditamos que a união dos cientistas, médicos e profissionais afins, é absolutamente necessária para abolir a ciência de
origem duvidosa e fraudulenta, que coloca em risco toda a Ciência honesta baseada em princípios éticos. Ações deste tipo certamente representariam um grande passo para eliminarmos a prática criminosa e abusiva da indústria farmacêutica que, apoiada pelos ghostwriters, favorece atitudes mercantilistas e comerciais esquecendo-se do real foco que é o progresso científico em prol do bem comum.
* Farmacêutico, Doutorando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP







