
A burocracia brasileira “faz” as pessoas sentirem dor
A dor do câncer é um dos maiores problemas associados a essa patologia e no Brasil esse problema é ainda mais intenso, segundo um artigo publicado pelo INCA (2014). Um dos fatores que compõem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de uma nação é a quantidade de opioides consumida per capita. De fato, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2003, os países desenvolvidos consumiram 79% da morfina utilizada no mundo, conta apenas 6% nos países em desenvolvimento. Segundo José Oswaldo Júnior, diretor do Departamento Central da dor do Hospital A.C.Camargo, de São Paulo, atualmente, o consumo de morfina é um índice de qualidade de vida e de avanço social. “Os países que mais consomem opioides no mundo inteiro têm maior qualidade de vida porque se preocupam em fazer com que os pacientes não sofram”. Se pegarmos o caso do Brasil temos que em 2010, consumimos 5,13 mg/per capita de todos os opiáceos enquanto os Estados Unidos, 73,67 mg/per capita e a Alemanha, 22,20 mg/per capita”. No Brasil, o consumo de morfina é baixo em qualquer situação, até mesmo entre os pacientes com câncer e o principal motivo desse problema é o excesso de burocracia. A burocracia impede o acesso a esses medicamentos ao exigir um receituário diferente, o receituário amarelo tipo A, que só pode ser obtido quando o profissional encaminha-se pessoalmente à Secretaria Estadual de Saúde para fazer um cadastro, e quando o receituário acaba, o médico deve refazer o procedimento. Além disso, outro obstáculo é a disponibilidade dos hospitais em oferecer a morfina e outros opioides. “Em algumas ilhas de qualidade do tratamento de câncer no País, como o INCA e o Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), há uma grande variedade de opioides que são prescritos e disponibilizados aos pacientes, em outros hospitais há uma carência. Outra dificuldade está em comprar os opioides pois poucas farmácias disponibilizam a medicação. “Toda farmácia que vende morfina e seus derivados é mais fiscalizada, logo, para muitas, não há interesse em se submeter a mais burocracia para comercializar determinadas drogas. Por último, os médicos tem medo de prescrever opiodes por causa dos efeitos colaterais, como a depressão respiratória, diminuição da frequência respiratória, que pode, até mesmo, provocar a morte, no entanto, todo o remédio tem efeitos adversos. Essa desinformação dos profissionais de saúde ainda é considerada um dos maiores entraves ao acesso à morfina pelos doentes com câncer. Dessa forma, a burocracia brasileira está fazendo a população sentir dor e ter uma menor qualidade de vida. O alívio da dor do câncer é considerado um direito humano de acordo com a OMS, dessa forma isso tem que mudar! Fonte: Burocracia e Dor. Rede Cancer, 25, 2014. Publicação Trimestral do Instituto Nacional De Câncer José Alencar Gomes Da Silva. http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/52fe0d8043ea33cc8b8bffddf65915ec/05_RC25_assistencia.pdf?MOD=AJPERES