
A observação do comportamento doloroso em um animal do mesmo convívio e o desenvolvimento de dor no animal observador
A empatia, capacidade de compartilhar um estado emocional, cognitivo, fisiológico com o próximo, é capaz de modular áreas cerebrais responsáveis pelo processamento da dor. Já foi demonstrado que humano apresentam o comportamento de empatia para a dor e quando em contato com um indivíduo com dor, alteram a própria percepção da mesma, estando mais suscetíveis ao seu desenvolvimento. Um estudo recente realizado na China sugere que animais utilizados em laboratório também tenham empatia capaz de alterar o processamento da dor. Eles utilizaram dois grupos de animais que estavam habituados a conviver numa mesma caixa, o primeiro (demonstrador) seria o animal exposto a um estímulo doloroso, no caso a injeção de veneno de abelha na pata, gerando a lambida da pata como comportamento nociceptivo espontâneo. O segundo grupo seria o observador (observador 1), e o terceiro era um animal de outra caixa, também utilizado como observador (observador 2). Nesta primeira etapa, os observadores não eram submetidos ao veneno de abelha, apenas a observação do comportamento nociceptivo do primeiro grupo. Após o período de observação e demonstração de dor, os animais foram separados e submetidos à avaliação do limiar nociceptivo frente a estímulos mecânicos e térmicos, e a posterior injeção de veneno de abelha nos observadores para avaliação da nocicepção espontânea. Interessantemente, o observador 1 desenvolveu hipersensibilidade bilateral a estímulos mecânicos e, quando submetido à injeção de veneno de abelha, apresentou uma resposta nociceptiva espontânea maior que a do próprio demonstrador. Por outro lado, o observador 2 não apresentou alterações nas respostas nociceptivas avaliadas, indicando que o comportamento de dor do observador depende de um convívio anterior com o animal demonstrador. Ainda, esta resposta não foi associada ao stress, pois não houve diferença em relação aos controles, na produção de hormônios relacionados a stress. Além disso, eles demonstraram que áreas específicas do cérebro relacionadas ainda com a empatia, como o córtex pré-frontal medial, estavam envolvidas com o processamento da dor no observador. Outros trabalhos já sugeriram a existência de empatia para a dor, medo e cativeiro em roedores do mesmo convívio, todavia, este assunto ainda é ponto de debate entre neuroscientistas. As pesquisas que abrangem o estudo a cerca dos processos neurais básicos mediando a resposta à dor dependem muito da utilização de modelos de dor em roedores. No entanto, nós pesquisadores normalmente adotamos uma abordagem reducionista que incide sobre os processos fisiológicos, ignorando possíveis influências sociais ou psicológicas. Nossos estudos são conduzidos pela avaliação de animais com contato visual, olfatório e auditivo, de maneira que estes podem ser importantes vieses de nossos estudos. Neste sentido, Li et al. aponta para a complexidade da experiência de dor em roedores e a necessidade da avaliação biopsicosocial no estudo da dor. Referência: Li Z, Lu YF, Li CL, Wang Y, Sun W, He T, Chen XF, Wang XL, Chen J. Social interaction with a cagemate in pain facilitates subsequent spinal nociception via activation of the medial prefrontal cortex in rats. Pain. 2014, 155(7):1253-61. Comentário: Langford DJ, de C Williams AC. The caring, sharing rat? Pain. 2014, 155(7):1183-4.