Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Divulgação Científica

A outra questão dos opioides

O uso de opioides é datado da pré-história, inicialmente a partir da papoula (Papaver somniferum) tanto para fins medicinais quanto religiosos devido a suas propriedades hipnóticas e euforizantes. Nesta época já era observado o desenvolvime

DOL · Dor On Line Edição 193 · Agosto 2016 ⭳ Baixar em PDF

O uso de opioides é datado da pré-história, inicialmente a partir da papoula (Papaver somniferum) tanto para fins medicinais quanto religiosos devido a suas propriedades hipnóticas e euforizantes. Nesta época já era observado o desenvolvimento de dependência, bem como da letalidade do uso continuo e excessivo. Já no século IX D.C. a civilização islâmica reativou o estudo da medicina e redescobrindo drogas usadas por civilizações antigas, empregando novamente o ópio para tratamento de varias moléstias, como diarreia e complicações oculares e dores de diferentes tipos. Posteriormente, foram extraídos e identificados do ópio mais de 25 diferentes tipos de alcaloides com função farmacológica, dentre estes, os mais importantes são a morfina, codeina e papaverina. Contudo, devido ao alto índice de dependentes químicos e fatalidades relacionados ao uso indiscriminado e/ou recreacional de opioides, seu uso foi restritamente controlado, algumas vezes de forma abusiva. Devido a esse controle excessivo, a restrição ao acesso legitimo a droga e a politica altamente punitiva para profissionais da saúde, seu uso foi inibido devido ao medo e desinformação, fazendo com que mais de 5 bilhões de pacientes em todo o mundo agonizem de dor por não ter acesso a classe de analgésicos. Ativistas de diversos países vão as ruas pedir a mudança da politica nacional de drogas, buscando juntamente ao governo traçar um curso para fornecimento seguro de analgésicos, visando defender a premissa de que todo cidadão tem direito ao alivio da dor, porém ainda é necessário quebrar a barreira entre os profissionais de saúde e os analgésicos, já que a maioria dos profissionais, mesmo percebendo a necessidade do uso, não receitam aos seus pacientes. Alguns países como o Vietnã, têm razões para manter-se cauteloso, visto que seus colonizadores introduziram o ópio para criar dependência e assim controlar a população, sendo hoje o país com maior índice de uso de drogas injetáveis do sudeste da Ásia. Nos Estados Unidos o consumo de opioides é até 500 vezes maior do que países europeus. Contudo, já se vê mudanças significativas em países que abriram espaço para o uso clinico do medicamento, como a Índia, que em 2012 enviou especialistas em cuidados paliativos à Universidade de Wisconsin-Madison para um programa que incentiva especialistas de países de baixa e média renda a enfrentar as barreiras quanto ao uso de opioides em seu país. Como resultado de seu treinamento, ao retornarem a Índia, se reuniram com representantes do governo para melhorar a estratégia de acesso aos opioides, e hoje ao invés de cinco licenças para aprovar o uso, é necessária apenas uma. A mudança é gradativa e lenta, mas já se mostra promissora. Para que haja controle do uso de analgésicos é necessária uma reforma na politica para prescrição de opioides, contratação de especialistas em cuidados da dor, pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos e conscientização tanto do profissional de saúde como do paciente sobre os prós e contras do uso de opioides. Em abril desse ano a Assembleia Geral da ONU chegou a um consenso sobre o problema mundial das drogas, garantindo a disponibilidade de substancias controlada para uso médico, porém até que seja posto em prática, isso pode levar tempo. A dor dos pacientes também é responsabilidade politica, sendo responsabilidade de cada país zelar pelo cuidado, bem-estar e direitos de sua população. Referências:
* Laursen L. Palliative care: The other opioid issue. Nature. 2016 Jul
13;535(7611):516-7.

* Duarte, DF. Uma breve história do ópio e dos opioides. Rev. Bras. Anestesiol. 2005; 55,1,135-146. Alerta submetido em 09/08/2016 e aceito em 09/08/2016.

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