
Canal Navl.1 regula a excitabilidade de nociceptores envolvidos na
hipersensibilidade mecânica A importância dos canais de sódio na dor vem sendo demonstrada há alguns anos e já descrevemos diversas vezes aqui na nossa página do DOL algumas novidades sobre o assunto. Contudo, a maioria dos estudos foca no
hipersensibilidade mecânica
A importância dos canais de sódio na dor vem sendo demonstrada há alguns anos e já descrevemos diversas vezes aqui na nossa página do DOL algumas novidades sobre o assunto. Contudo, a maioria dos estudos foca nos canais de sódio do tipo TTX-resistentes, o Nav1.8 e o Navi1.9 (para saber um pouco mais sobre estes canais de sódio veja nosso editorial publicado em dezembro de 2015, http://www. dol.inf.br/Html/EditoriaisAnteriores/Editorial185.pdf). Entre os canais de sódio voltagem-dependentes que são sensíveis à TIX e que até o momento eram pouco relacionados à dor, está o canal Nav1.1. De fato, a maioria dos estudos demonstrou que o Navi.1 estava mais associado a desordens no SNC, como a epilepsia, o autismo e a doença de Alzheimer. Em 2007 foi relatado que o canal Nav1.1 estava envolvido em um tipo de mutação genética do tipo ganho de função,
que é a enxaqueca do tipo 3, um tipo de enxaqueca hereditária (discutimos esse 96.pdf). No entanto, o papel do canal Nav1.1 na enxaqueca não foi relacionado a uma ação nos neurônios sensoriais nociceptivos e sim a outros mecanismos centrais. Com essa questão em aberto (de um possível envolvimento dos canais Navi.1 na dor), pesquisadores dos EUA e Austrália se propuseram a um desafio de encontrar na natureza possíveis ligantes dos canais Navl.1. Primeiro os cientistas fizeram um screening de toxinas presentes em venenos de aranhas, escorpiões e centopeias, na habilidade destas toxinas em ativar neurônios nociceptivos. Foram encontrados no veneno da tarântula Heteroscodra maculata dois peptídeos ativos capazes de alterar a excitabilidade de neurônios periféricos. Após uma série de experimentos os pesquisadores identificaram a estrutura desses peptídeos e validaram como um dos componentes ativos do veneno o Hmia, o qual foi sintetizado e utilizado a versão sintética do peptídeo nos experimentos seguintes. Foi observado que o peptídeo Hmia ativa especificamente os canais de sódio do subtipo Navi.1 em cultura de neurônios sensoriais periféricos. Além disso, foi caracterizado que o canal Nav1.1 é expresso principalmente em fibras mielinizadas do tipo A, e não em fibras não mielinizadas do tipo C, em neurônios do gânglio da raiz dorsal. A seguir os autores foram estudar se a ativação de Navi.1 nas fibras nociceptivas estaria envolvido no comportamento de dor. De fato, foi demonstrado que o peptídeo sintético Hmia induziu uma resposta nocifensiva robusta, sem a presença de uma inflamação neurogênica, e induziu uma intensa hipersensibilidade mecânica, mas não térmica, e estes comportamentos nociceptivos foram atenuados tanto pela inibição farmacológica como pela deleção genética do canal Nav1.1 nos nociceptores.
Os pesquisadores ainda demonstraram no intestino que as fibras mecano-sensíveis intestinais de alto limiar expressam uma grande quantidade de canais Navt.1 e mostraram que a toxina Hmia aumenta a sensibilidade dessas fibras no modelo animal que mimetiza a Síndrome do Intestino Irritável (SII), uma doença caracterizada por dor mecânica, sugerindo que o canal Nav1.1 está envolvido na hipersensibilidade mecânica na SII. Em conjunto os dados deste estudo demonstram um papel inesperado para os canais de sódio Nav1.1 em regular a excitabilidade das fibras nociceptivas que medeiam a dor mecânica abrindo um novo campo de estudo para o papel dos canais Nav1.1 em diferentes tipos de dores associadas com sensibilização mecânica (como enxaqueca) e, ainda, que bloqueadores destes canais possam vir a surgir como potentes analgésicos. Referência: Osteen JD, Herzig V, Gilchrist J, Emrick J), Zhang C, Wang X, Castro 3, Garcia-Caraballo S, Grundy L, Rychkov GY, Weyer AD, Dekan Z, Undheim EA, Alewood P, Stucky CL, Brierley SM, Basbaum AI, Bosmans F, King GF, Julius D. Selective spider toxins reveal a role for the Nav1.1 channel in mechanical pain. Nature. 2016, 534(7608):494-9.
Alerta submetido em 21/10/2016 e aceito em 29/11/2016.