
Carta do Leitor – Comentário aberto sobre o uso de animais em experimentação
Sra. Fabíola,
Acredita-se, atualmente, haver clara distinção entre paradigma e dogma. Paradigmas que são criados para serem modificados e dogmas elaborados para não serem questionados. A Ciência sempre defendeu estar fundamentada sobre paradigmas que, de acordo com seus próprios avanços, tenderiam a mudar seus próprios paradigmas. Caracterizam, assim, a evolução da Ciência.
Questiona a senhora acerca do modelo animal na Ciência. Acompanha-se no mundo inteiro a discussão acerca da ética e da validade científica em se utilizar da experimentação animal um parâmetro no desenvolvimento de medicamentos e demais substâncias correlacionadas. Pesquisas, considerações de médicos, psicólogos, enfermeiros e demais profissionais que dizem o modelo animal ser um fracasso, um atraso científico são simplesmente ignorados. Por quê?
Como um dos vários exemplos a serem citados, tem-se o caso da penicilina. Seus efeitos terapêuticos foram descobertos sem a utilização do modelo animal por volta de 1928. Na época, a Comunidade Científica, crente da necessidade de utilização do modelo animal não-humano, realizou diversos testes de experimentação animal. Todos fracassaram. A penicilina foi liberada para uso somente em 1941. A experimentação animal na utilização da penicilina representa um atraso de 13 anos.
Há outro dado curioso, dos cerca de 20.000 a 30.000 medicamentos e produtos vendidos em farmácias que estão à venda no mercado, a Organização Mundial de Saúde apontou apenas 250 como sendo necessários para programas de saúde humana. Isso significa apenas 1%. Em relatórios anteriores, a FDA nos Estados Unidos também registra a liberação de apenas 1% dos fármacos a serem comercializados. Onde está validade científica na produção de fármacos?
O que mais perguntar diante de cientistas que trocaram paradigmas por dogmas?
Att. Pedro Teixeira
Resposta Equipe DOL
Caro Sr. Pedro Teixeira,
Desde já agradecemos sua carta e participação nesta importante discussão. Acreditamos no direito de imprensa livre e aproveitamos para publicar nesta edição sua carta, expondo nosso posicionamento a respeito da experimentação animal, foco de nosso Editorial da edição passada.
Nossa posição a favor do uso de animais em experimentação merece uma observação extremamente relevante: tal prática deve, sem sombra de dúvida, obedecer, sempre, a critérios éticos, priorizando o bem-estar animal, e evitar ao máximo seu sofrimento, mesmo em áreas de pesquisa como a dor. Ainda, é importante mencionar que existem dados mostrando que o uso dos animais em experimentação foi responsável, de modo direto e indireto, pelo conhecimento científico que levou ao aumento médio de 23,5 anos na expectativa de vida da população no século XX. Como já citado no Editorial, os benefícios e avanços que os pesquisadores conseguiram tendo como mapa o modelo animal de diversas doenças gerou, entre outros benefícios, significativo crescimento no desenvolvimento de medicamentos contra a AIDS, possibilitou a produção de antibióticos, fármacos antipsicóticos, medicamentos contra a artrite, câncer, diabetes, doença de Alzheimer, valvopatias – doenças de válvulas cardíacas –, esquizofrenia, hepatite, fibrose cística, lesões de medula e cérebro e hipertensão arterial. Além disso, a experimentação animal tem contribuído de maneira significativa para o desenvolvimento e aprimoramento de procedimentos cirúrgicos, quimioterápicos e vacinas.
Embora o preço destes benefícios pareça ser alto quando se refere ao uso dos animais, ainda deve ser considerado que em grande parte dos casos (senão todos) não existem alternativas confiáveis que possibilitem acuidade nos resultados. Talvez a discussão fosse melhor dirigida se, de fato, fossem consideradas as maneiras de lidar com os animais. Isso, sim, deve ser alvo de campanhas calorosas, para que a fiscalização aconteça e sejam respeitados requisitos mínimos que, garantimos, melhorarão inclusive o nível das pesquisas.
Contudo, o que vemos é uma série de opiniões de pessoas que criticam o uso de animais em laboratórios pela possibilidade de haver maus tratos na prática. Fica a pergunta: será que estas pessoas não se beneficiaram em nenhum momento da vida das descobertas realizadas por meio de experimentação animal? Ainda, é necessário levantarmos um ponto importante: qual seria a alternativa para testar efeitos analgésicos, anti-inflamatórios e ansiolíticos de alguns medicamentos? Se muitos dos efeitos só podem ser avaliados na prática, como testá-los in vitro? Com humanos? Não existe essa possibilidade, certo? Neste ponto todos devem concordar, não?
Entendemos, Sr Pedro, que seu dilema faça parte do pensamento humano desde a idade média e aconselhamos a leitura de alguns artigos disponíveis nos links abaixo, pois entre o debate popular que vemos na mídia, aquele que mostra protestos e atos de vandalismo (como o que recentemente aconteceu na USP em São Paulo, nas reportagens [Vândalos invadem laboratório da USP e destroem aparelhos] e [Newsletter SBFTE]) sendo praticados por pessoas que parecem não entender a grandiosidade do assunto, e a real necessidade imposta pela Ciência séria e bem realizada, aquela que de fato utiliza as metodologias corretamente sempre com respeito, seja com animais, seja com material coletado, existe uma grande distância.
Agradecemos novamente a sua participação e gostaríamos que outros leitores manifestassem sua opinião, afinal de contas, o debate saudável também é um dos objetivos da Ciência bem feita e séria.
Atenciosamente,
Equipe DOL
Artigos complementares
Com base na discussão acima, disponibilizamos artigos publicados em primeira mão na revista Ciência & Cultura que discutem a complexa questão da experimentação animal. Estes artigos, organizados pela pesquisadora Regina Markus, contemplam diversos aspectos da questão, incluindo a sua contextualização histórica, a importância da experimentação animal para o avanço do conhecimento, a sua legitimidade e, evidentemente, a questão ética. Considerando o contexto atual, a temática é permeada por um aspecto prático, referente à questão da legislação pertinente, que vem sendo discutida e construída ao longo dos anos pela comunidade científica brasileira, mas que precisa urgentemente de uma definição. É fato que temas que envolvem tantos aspectos e tantas visões distintas precisam de um amplo debate, embasado por princípios éticos precisos e pela constante busca de ampliar o conhecimento científico da humanidade. Acreditamos que estes artigos contribuem de forma satisfatória para esse debate fundamental. (texto adaptado do Editorial da revista Ciência & Cultura, escrito por Marcelo Knobel, Abril 2008).
Legal, legítimo e ético: avanços da ciência - busca do conhecimento. A Profa. Dra. Regina P. Markus apresenta uma visão complementar sobre a importância e os cuidados necessários para a utilização de animais em experimentação;
Entendimento humano da experimentação animal. Neste artigo, o Professor do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP Wothan Tavares de Lima, além de comentar as divergências entre grupos que consideram relevante o uso de animais e aqueles que se contrapõem à sua utilização, também salienta a inegável melhoria da qualidade de vida geral com os benefícios produzidos por experimentos realizados com animais;
Conservação, ética e legislação brasileira: uma proposta integrada em defesa dos animais não-humanos. Eleonora Trajano e Luis Fábio Silveira, do Instituto de Biociências da USP, procuram ordenar a forma de se referir aos animais e focalizam os conceitos envolvidos no estudo do Reino Animalia. Os autores comentam conceitos de conservação e preservação dentro da legislação brasileira e dão destaque à necessidade de uma profunda mudança na cultura da relação com os animais, de maneira racional, coerente e desvinculada de visões antropocêntricas;
Métodos alternativos à utilização de animais em pesquisa científica: mito ou realidade? O texto de Marcelo Morales relaciona algumas das principais alternativas à utilização de mamíferos em pesquisas científicas e como elas puderam e podem contribuir para o avanço científico;
Comissão de ética animal. Considerações sobre a ética da pesquisa com e em animais são feitas neste texto de William Saad Hossne, que se refere ao tema de modo abrangente, não se restringindo apenas à questão do uso dos animais em pesquisa;
Animais transgênicos: nova fronteira do saber. Lygia da Veiga Pereira, do Instituto de Biociências da USP, relata os benefícios biotecnológicos e diretos do uso de animais transgênicos na agricultura, na medicina e na indústria;
Legalização do uso de animais de laboratório: presente, passado e futuro. O pesquisador Renato Sérgio Balão Cordeiro expõe uma visão histórica em relação à legislação do uso de animais de laboratório, evidenciando os problemas ocasionados pela inexistência de uma lei federal que regulamente a pesquisa com animais no Brasil;
Ciência em animais de laboratório. Neste artigo, os autores abordam a Ciência dos animais de laboratório, ou seja, a importância do estudo do próprio animal que será utilizado na pesquisa e como este deve ser criado e manipulado, com ênfase em seu bem-estar.
Artigos complementares (Fonte: Ciência & Cultura. v.60 n.2 São Paulo 2008)