
Doença de Alzheimer e conectividade funcional de regiões cerebrais na percepção de dor
Como mencionado na edição 178, pacientes com demência, condição comum entre idosos hospitalizados, parecem apresentar dificuldade não somente para expressar a sensação dolorosa, mas até mesmo para percebê-la ("Pessoas com demência internados em leitos de hospitais gerais", Dor On Line nº 178). Naquela edição, o estudo verificou em diferentes hospitais ingleses que pacientes dementes apresentavam alterações de humor associadas à presença de dor, sendo esta pouco controlada, apesar do uso de medicamentos. Além disso, também houve correlação entre a progressão da idade e a presença de dor nos pacientes. Neste sentido, em outro estudo foi relatado que pacientes com doença de Alzheimer (DA) recebem menos analgésicos e relatam menos dor que indivíduos da mesma idade e sem esta demência. Neste estudo, para examinar o impacto da DA na nocicepção destes pacientes, foi avaliada por meio de imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) a conectividade funcional, ou sincronicidade de ativação, entre regiões associadas aos aspectos cognitivos, sensoriais e emocionais da dor. Acredita-se que estes indivíduos possam apresentar capacidade menor de sentir dor devido a alterações em áreas centrais relacionadas à transmissão e processamento nociceptivo, possivelmente resultantes de neurodegeneração. Uma das análises realizadas identificou alterações em regiões com conectividade funcional significativa com o córtex pré-frontal dorsolateral direito (DLPFC), área relacionada com a modulação cognitiva da dor, assim como de outras 17 regiões predefinidas de processamento da dor. A comparação entre grupos revelou que há uma conectividade funcional aumentada entre a DLPFC e o córtex cingulado medial, a substância cinzenta periaquedutal, tálamo, hipotálamo e muitas áreas motoras em pacientes com DA em comparação ao grupo controle. Da mesma forma, a conectividade funcional intra-regional mostrou-se aumentada em três pontos: o DLPFC-R, hipotálamo e a substância cinzenta periaquedutal (PAG). A conectividade aumentada em pacientes com DA pode ser interpretada em termos de capacidade reduzida dos pacientes em interpretar o input sensorial desagradável de dor. Os resultados deste estudo mostram que pode haver uma correlação entre a dor e processos cognitivos em pacientes com doença de Alzheimer. Referência: Cole LJ, Gavrilescu M1, Johnston LA, Gibson SJ, Farrell MJ, Egan GF. The impact of Alzheimers disease on the functional connectivity between brain regions underlying pain perception. Eur J Pain. 2011 15(6):568.e1-11.