
Dores malignas: a associação de medicamentos pode produzir analgesia com menos efeitos indesejáveis
Associações de medicamentos analgésicos opioides (do tipo da morfina) e anti-eméticos são usadas para alívio da dor e de náuseas em pessoas com doenças malignas. Contudo, o uso prolongado dos opioides normalmente é acompanhado de efeitos indesejados, o que, de certa forma, limita seu uso. Mais ainda, nem sempre o uso concomitante de certas drogas é interessante a longo prazo, mesmo porque certas associações podem potencializar efeitos adversos de alguns medicamentos (ver DOL 83). Com base nestas informações, e devido à dificuldade de obtenção de sucesso no alívio de sintomas causados por doenças como o câncer, vários estudos são feitos com o intuito de determinar quais associações medicamentosas poderiam ser mais efetivas para tratar doenças malignas, porém com menor chance de ocorrência de efeitos colaterais graves. Assim, um trabalho realizado na Universidade de Witwatersrand, em Johannesburg, África do Sul, investigou os efeitos sobre a dor e sobre a função motora que podem ser gerados pela interação entre a morfina e a metoclopramida. A morfina, um fármaco opioide, é bastante usada para tratamento de dores oncológicas e de intensidade severa (veja mais sobre os efeitos adversos causados pelo uso por longo tempo de opioides em nosso Editorial do Mês da edição 83 do DOL). Já a metoclopramida é uma droga usada para aliviar as náuseas decorrentes do tratamento, com ação em receptores para o neurotransmissor dopamina do tipo D2. Utilizando animais (ratos) e testes que avaliavam se os medicamentos isolados ou não teriam ação sobre a dor e coordenação motora, os autores verificaram que a metoclopramida, embora não possua efeito analgésico isoladamente, pode aumentar, quando administrada em altas doses, o alívio da dor proporcionado pela morfina. Porém, foi observado também que essa associação prejudicava a função motora dos animais, mesmo em baixas doses. Como as doses altas de metoclopramida também causavam prejuízo na coordenação motora quando usadas isoladamente, pode ser que esta não somente potencialize os efeitos da morfina, mas também seja potencializada pelo opioide, já que a associação era feita com baixas doses da metoclopramida. Mesmo assim, os autores afirmam que a co-administração desses dois medicamentos é útil para ser utilizada clinicamente, visto que menores doses de morfina podem ser utilizadas para diminuir a dor decorrente de doenças malignas, embora o acompanhamento dos pacientes devido aos efeitos causados pela terapia deva ser realizado incessantemente e, no caso de piora, providências sejam tomadas imediatamente. Fonte: Peter R Kamerman, Nicole Becker and Linda G Fick. Interactions between metoclopramide and morphine: enhanced antinociception and motor dysfunction in rats. Clinical and Experimental Pharmacology and Physiology (2007) 34, 106–112.