
Em cartaz, “Cortina de Fumaça” debate sobre o uso medicinal da maconha
Num mundo contemporâneo, diversas opiniões tem ganhado destaque no que diz respeito a utilização de plantas medicinais para fins terapêuticos. A maconha entra em cena novamente para chamar a atenção da população e de pesquisadores acerca dos benefícios e malefícios que pode proporcionar, seja ela para sua utilização como medicamento ou como uma droga recreacional. Nesse aspecto, esse tema tem ganhado força no cenário político, étnico e cultural. A maconha é conhecida cientificamente como Cannabis sativa, e tem sido bem aceita pelo seu real potencial analgésico podendo assim demonstrar sua capacidade de aliviar sintomas relacionados com doenças do sistema nervoso central. Porém, a maconha, por ser a mais popular das drogas ilegais conhecidas em todo o mundo, gera preconceito tanto entre os leigos como entre profissionais que atuam na área da saúde, aquecendo assim um debate com divergência de opiniões. Os estudos relacionados à Cannabis sativa e seus efeitos começaram a ganhar legitimidade com a identificação da sua estrutura química, a possibilidade da obtenção de seus componentes isolados e de como poderiam funcionar no organismo. Além do seu princípio ativo, o delta-9-tetrahidrocanabinol (Δ9–THC), a Cannabis sativa contém outras 65 substâncias chamadas fitocanabinoides. Com o avanço nos estudos, foram identificados os receptores canabinoides CB1 e CB2. É conhecido que os receptores CB1 estão localizados no sistema nervoso central, em regiões que modulam as funções cognitivas, dor e memória de curto prazo (hipocampo, córtex cerebral), controle e coordenação motora (gânglios da base e cerebelo), hipotálamo, além da medula espinal e gânglio da raiz dorsal. Por outro lado, os receptores CB2 estão presentes no sistema periférico, e se relacionam com o sistema imunológico, células T, células B, baço, amígdalas e células microgliais ativadas. Nos últimos anos, foram sintetizados vários compostos canabinoides. A primeira medicação oriunda diretamente da planta Cannabis sativa foi obtida a partir dos princípios ativos Δ9–THC e canabidiol, um canabinoide sem efeito psicotrópico. Pacientes com dor oncológica, neuropática e esclerose múltipla são submetidos a essa prescrição em países que tem sua liberação autorizada (ex: Canadá). Testes com nabilona, outro canabinoide sintético, foram realizados para avaliar a eficácia terapêutica por vias oral e sublingual em pacientes com dor secundária a esclerose múltipla, lesão do plexo braquial, dor ciática, neuralgia do trigêmeo, dor orofacial e neuropatia periférica. Podem ser observados efeitos em 30% dos pacientes que melhoraram na qualidade do sono, ansiedade e espasmos musculares; 25% não toleraram o tratamento devido a efeitos indesejáveis (“Um alerta ao uso medicinal da maconha” – boletim DOL no. 129). Como indicação para alívio da dor neuropática crônica, refratária a tratamentos analgésicos convencionais, ainda apresenta efeito antiemético em pacientes oncológicos. A partir dos resultados de investigações experimentais e estudos clínicos é consenso que a maconha oferece benefícios aos pacientes. Para se utilizar os canabinoides como analgésicos, devem ser consideradas as limitações que essa alternativa terapêutica apresenta. Além da variedade dos compostos existentes e sua aplicação em cada estudo, é necessário dispor de questões e respostas para o debate que não é apenas médico, mas também ideológico, político e econômico. O uso de canabinoides na dor aguda, em especial na dor pós-operatória, vem despertando interesse de pesquisadores que relatam resultados promissores em mulheres submetidas à histerectomia abdominal, que foram mantidas com analgesia por meio de analgesia controlada pelo paciente (ACP) com morfina nas primeiras 24 horas e, subsequentemente, após a descontinuação da infusão, foram utilizadas cápsulas de THC (5 mg) ou placebo. Não se encontraram diferenças significativas entre a necessidade de analgésicos de resgate ou na avaliação da dor nas primeiras seis horas de avaliação entre os dois grupos (THC e placebo). A conclusão obtida por esses últimos estudos publicados mostra que os canabinoides ainda não se mostraram eficientes para o combate da dor pós-operatória. A maconha ao longo de sua história sempre suscitou e ainda suscitará muitas discussões. No Brasil ela é considerada droga ilícita e os dados mundiais não afastam e nem dão suporte efetivo para o uso medicinal, talvez pelo temor de estimular o uso ilegal da droga. A tensão gerada entre aqueles que defendem sua proibição, legalização ou o consumo com finalidades medicinais não chegou ao fim. Certamente, dentro de mais alguns anos essas respostas aparecerão. Perspectivas científicas apontam a substância como opção de tratamento, proporcionando finais de vida mais dignos para alguns pacientes. Visto que o assunto no Brasil permanece alvo de um grande debate, principalmente pela mobilização do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) em defesa da regulamentação da droga, o tema reabre espaço para a estreia no Rio de Janeiro do documentário "Cortina de Fumaça", de Rodrigo Mac Niven, que traz 34 depoimentos de médicos, pesquisadores, advogados, policiais e representantes de movimentos civis, que debatem a legalização das drogas e os efeitos da proibição para a sociedade. Entre os entrevistados estão FHC - que também participou de "Quebrando o Tabu", de Fernando Grostein Andrade - e estudiosos, como Elisaldo Carlini - do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (CEBRID) - Renato Malcher - da Universidade de Brasília - e Sidarta Ribeiro – professor titular do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O documentário convida a todos a uma reflexão de forma crítica e audaciosa frente a decisões que podem mudar a perspectiva de pacientes com síndromes dolorosas em busca de uma melhor qualidade de vida. Referência e fonte: Buggy DJ, Toogood L, Maric S, Sharpe P, Lambert DG, Rowbotham DJ. Lack of analgesic efficacy of oral delta-9-tetrahydrocannabinol in postoperative pain. Pain. 2003 106(1-2):169-72. http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2011/09/01/filme-estreia-nesta-sexta-no-rio-reabre-debate-sobre-uso-medicinal-da-maconha-925270200.asp