
Eu sinto a sua dor! Desvendando a transferência social da dor e da
analgesia Nos últimos anos, a empatia tem sido um assunto bastante discutido, principalmente nas mídias digitais. É provável que você já tenha ouvido o seu youtuber favorito falando sobre a importância de sermos empáticos, principalmente em
analgesia Nos últimos anos, a empatia tem sido um assunto bastante discutido, principalmente nas mídias digitais. É provável que você já tenha ouvido o seu youtuber favorito falando sobre a importância de sermos empáticos, principalmente em tempos de pandemia de coronavírus. O que muitos não sabem é que a empatia não é uma característica exclusivamente humana. Muitos animais possuem a capacidade de reagir àquilo que acontece com seus parceiros, reproduzindo sensações físicas e emoções. Um exemplo impressionante da empatia em camundongos é o fenômeno conhecido como transferência social da dor e da analgesia. Em uma pesquisa recente, publicada na revista Science, que contou com a colaboração de pesquisadores dos Estados Unidos e do Japão, esse fenômeno foi estudado detalhadamente. Em um dos experimentos, os cientistas injetaram uma substância irritante chamada CFA na pata de um camundongo, que logo começou a demonstrar comportamentos de dor. O animal com dor foi então colocado em uma gaiola junto com outro camundongo que não havia sofrido qualquer tipo de manipulação; esse segundo animal foi chamado de camundongo observador. Após uma hora de interação na gaiola, o camundongo observador passou a manifestar
comportamentos de dor com a mesma intensidade daquele que havia sido injetado com a substância irritante. Era como se, de alguma forma, o primeiro camundongo transferisse a sua dor para o companheiro observador. Um segundo experimento demonstrou que o processo de transferência também acontece com a analgesia. Desta vez, dois camundongos receberam a substância irritante que provocava dor. Apenas um deles recebeu morfina, um analgésico opioide que reduz a dor causada pelo CFA. Como no experimento anterior, os dois animais foram colocados na mesma gaiola, onde interagiram por uma hora. Após a interação social, ambos os camundongos exibiam níveis similares de analgesia, ainda que nenhum tipo de tratamento tenha sido oferecido para o segundo animal. A transferência social da dor e da analgesia já foi demonstrada por outros cientistas. A grande novidade desse trabalho é que os pesquisadores conseguiram mapear as áreas do encéfalo que estão envolvidas nesse intrigante fenômeno. Eles descobriram que a transferência é dependente de projeções neurais do córtex cingulado anterior para o núcleo accumbens. O córtex cingulado anterior é uma região importante para o sentimento de empatia, pois se comunica com outras partes do encéfalo que são responsáveis por regular nossas emoções. Já o núcleo accumbens é conhecido como o “centro do prazer”, exercendo funções relacionadas ao sentimento de recompensa, prazer, vício e medo. Estudos experimentais como esse podem levar ao desenvolvimento de novas terapias para diversos transtornos psiquiátricos associadas ao déficit de empatia. Embora ainda estejamos longe de compreender os intrincados mecanismos envolvidos na empatia e na modulação da dor, essa pesquisa revela mais uma peça do quebra-cabeça que é o funcionamento da mente. Referência: Smith ML, Asada N, Malenka RC. Anterior cingulate inputs to nucleus accumbens control the social transfer of pain and analgesia. Science. 2021;371(6525):153-159. doi:10.1126/science.abe3040 Alerta submetido em 20/04/2021 e aceito em 13/05/2021. Escrito por Pedro Santana Sales Lauria.