
Excreção de morfina e derivados biossintéticos na urina de camundongos
Foi estabelecido firmemente que os seres humanos excretam em sua urina uma quantidade pequena, mas constante, do alcaloide isoquinolínico morfina (fármaco narcótico do grupo dos opioides, que é usado no tratamento sintomático da dor). Uma revisão sobre o assunto já foi alvo de um boletim anterior do DOL (Boletim: 76 Ano: 2006), baseado em dados histológicos e de cultura de tecidos, buscando verificar mecanismos de biossíntese comuns entre a Papaver somnifera e tecidos animais e implicando esta produção endógena a processos de adicção etílica e dando suporte ao envolvimento de morfina e receptores opioides μ em áreas límbicas associadas a comportamentos ligados à ingestão do etanol. Não está claro se a origem desta morfina é alimentar ou endógena. Não há dúvida de que o alcaloide isoquinolínico simples, o tetrahidropapaverolina (THP) é encontrado no cérebro de humanos e roedores, bem como na urina humana. Isto sugere uma possível relação biogenética entre os dois tipos de alcaloides. O estudo utilizou THP não marcado ou [1,3,4-D3]-THP injetado intraperitonialmente em camundongos, cuja urina foi analisada. Este precursor potencial foi extensivamente metabolizado (96%) e entre os metabólitos encontrados foi detectado a salutaridina, um produto de acoplamento fenólico e precursor biossintético da morfina na papoula. O produto da redução da salutaridina, o [7D]-salutaridinol, foi administrado por via intraperitoneal em animais vivos, e levou à formação de [7D]-tebaina, que foi excretada na urina. A [N-CD3] tebaina também foi administrada e originou [N-CD3] morfina e o congêneres [N-CD3]-codeína e [N-CD3]-oripavina na urina. Estes resultados mostram pela primeira vez que os animais vivos têm a capacidade biossintética para converter um componente normal dos roedores, o THP, em morfina. A morfina e seus precursores não são normalmente encontrados em tecidos ou órgãos, provavelmente devido à degradação metabólica. Assim, somente a parcela não-metabolizada dos alcaloides isoquinolínicos é excretada na urina e pode ser detectada. O trabalho fez uso por espectrometria de massa de alta resolução para a análise de urina. Esta técnica provou ser um método poderoso para rastrear morfina endógena e seus precursores biossintéticos. Referência: Grobe N, Lamshöft M, Orth RG, Dräger B, Kutchan TM, Zenk MH, Spiteller M. Urinary excretion of morphine and biosynthetic precursors in mice. Proc Natl Acad Sci U S A. 2010 107(18):8147-52.