Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

Experiência extracorpórea

DOL · Dor On Line Edição 31 · 2002 ⭳ Baixar em PDF

O fenômeno da experiência extracorpórea (EEC) desde há muito tem sido intrigante não somente para ciência, mas também para outras áreas como a cultura e a religião. A EEC tem sido objetivo de variados estudos em diversas áreas: neurofisiologia (epilepsia), psiquiatria, psicoterapia e também tem despertado interesse da cefaliatria, uma vez que muitos casos associam-se à migrânea. Experiência extra-corpórea é a percepção que o indivíduo tem de que esteja saindo de seu próprio corpo e assumindo outra posição no espaço, a partir da qual observa a si próprio em posição original. Seria a resultante de um complexo mecanismo neurofisiológico que envolve áreas corticais e que clinicamente expressa-se por vários distúrbios somatosensoriais associados1,2,3. Podool (1999) em estudo metanalítico de 562 quadros pintados por migranosos observou a representação sugestiva de EEC em algumas telas2,6. A investigação de indivíduos epilépticos com epilepsia parcial e que apresentam ocorrência do fenômeno de EEC evidenciou lesões frequentemente em lobo temporal, e com menor frequência em lobo parietal (esse sabidamente envolvido na organização do esquema corporal)3. Pontos de gatilho em regiões corticais específicas foram recentemente detectados através de estudos eletrofisiológicos em monitorização invasiva. O giro angular estaria primariamente envolvido e seria o responsável pela percepção do próprio corpo. Também envolvido estaria o córtex vestibular próximo ao giro angular, ao qual seria atribuída a sensação de flutuação ou levitação1. A experiência extracorpórea não é uma expressão clínica somatosensorial isolada, mas expressa um conjunto de alterações sensitivas e perceptuais distintas como: fenômeno do dublê, autoscopia, metamorfopsia, imagem fragmentada em mosaico, macrossomatognosia, microssomatognosia, percepção vibratória, sensação de flutuação, projeção corporal e outras. Para melhor compreensão define-se: Metamorfopsia: Fenômeno visual no qual os objetos ou figuras aparecem sem seus contornos delimitados; existe a distorção da imagem4. Dublê: Fenômeno que caracteriza a duplicação do esquema corpóreo. Este pode ocorrer em partes isoladas (cabeça, mãos, pés e outros) ou apresentar-se como a totalidade corporal, também denominado de corpo parassomático 2,3. Autoscopia: Caracteriza a percepção visual do próprio corpo através do dublê ou corpo parassomático. Na autoscopia o dublê (corpo duplicado) está projetado ao lado do corpo real ou distante e a partir dessas posições consegue visualizar seu corpo somático em posição original3. Macrossomatognosia e Microssomatognosia: Fenômenos relacionados à distorção de tamanho de partes do corpo. Geralmente há relatos que as mãos cresceram, a cabeça diminuiu e outros5. É possível que, com os avanços nas áreas de neurofisiologia, neuro-imagem e imagem funcional, seus mecanismos estejam mais próximos de serem elucidados, e este fenômeno aos poucos passe a ser visto como pertencente aos domínios da ciência clássica. Resumido por Carolina MM Batista e CA Bordini. Bibliografia: Blanke,O., Ortigue,S., Landis,T., Seeck,M. Stimulating illusory own-body perceptions. Nature, v. 419, p. 269-270, 2002. Podoll,K., Robinson,D. Out-of-body experiences and related phenomena in migraine art. Cephalalgia,v. 19,p. 886-896, 1999. Devinky,O., Feldman,E., Burrowes,K., Bromfield,E. Autoscopic phenomena with seizures. Arch Neurol;v. 46, p.1080-1088, 1989. Lunn,V. Autoscopic phenomena. Acta Psychiatr Scand; Suppl 219 p.118-125, 1970. Podoll,K., Robinson,D. Macrosomatognosia and Microsomatognosia in migraine art. Act Neurol Scand; v. 101 p.413-416,2000. Stafstrom,C.E., Rostasy,K., Minster, A. The Usefulness of Children´s Drawinhs in the Diagnosis of Headache. Pediatrics; v.109, p. 460-472,2002.

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