
Função da dopamina diferencial na fibromialgia
A dor crônica em enfermidades como a fibromialgia (FM) possui causa provável em disfunções no processamento da nocicepção. A dor crônica pode afetar negativamente a vida cotidiana e, por isso, relatos de depressão, ansiedade e problemas cog
A dor crônica em enfermidades como a fibromialgia (FM) possui causa provável em disfunções no processamento da nocicepção. A dor crônica pode afetar negativamente a vida cotidiana e, por isso, relatos de depressão, ansiedade e problemas cognitivos são muitas vezes associados a indivíduos com dor crônica. Além disto, os analgésicos prescritos para estes casos não costumam tratar as comorbidades acima associadas.
Estudos de imagem recentes implicam um papel regulador da dopamina (DA) na nocicepção induzida experimentalmente em humanos. Alterações na função da DA já foram documentadas em patologias com dor crônica, incluindo a FM; além disso, sabe-se que a DA é essencial para a função cognitiva. Tais fatos apoiam a ideia de que o processamento cognitivo cortical poderia ser alterado em pacientes com FM. Com o intuito de elucidar o papel dopaminérgico nas experiências de dor e no potencial comprometimento cognitivo, o trabalho deste alerta teve por objetivo primário analisar se a sinalização dopaminérgica é diferente em indivíduos com dor crônica (com FM) por meio de tomografia por emissão de pósitrons (PET).
A amostra de indivíduos neste estudo é composta por 12 mulheres com FM e 12 mulheres controle. Elas realizaram o PET, com marcador para receptores dopaminérgicos (D2/D3), duas vezes em dias separados e durante testes cognitivos; um teste foi realizado para obtenção de uma linha de base (controle, uma tarefa de atenção/BL, baseline) e o outro foi uma tarefa de memória de trabalho (WM, work memory). Questionários de dor (auto- relatada) foram aplicados antes do início de cada varredura com o PET; testes cognitivos adicionais foram aplicados antes da BL e também foi realizado um teste de sensibilidade à pressão, indicativo de sensibilidade e tolerância à dor mecânica nos participantes do estudo. Antes da aplicação do marcador de D2/D3, os pesquisadores garantiram que os participantes foram capazes de entender, ler e executar a tarefa sem movimentos da cabeça significativos. Para a análise do PET é necessário um tecido de referência que possui um número reduzido ou insignificante de receptores-alvos do marcador; para o estudo, o tecido escolhido foi a matéria cinzenta do cerebelo.
Em relação aos resultados dos parâmetros de dor utilizados no estudo, os indivíduos com FM relataram dor mais elevada em relação ao grupo controle, e a sensibilidade e a tolerância à dor foi menor do que o controle. Quanto aos testes cognitivos, durante a varredura, a BL revelou várias regiões corticais em que participantes com FM apresentaram medidas significativamente menores do que o grupo controle. A WM não induziu diferenças detectáveis na transmissão da DA medida pelo PET. Isto demonstra que os indivíduos com FM possuem receptores dopaminérgicos em menor quantidade em relação aos controles saudáveis. O estudo ainda revelou que indivíduos com FM apresentam menor número D2/D3 no córtex cingulado anterior (ACC). Esta área é envolvida no processamento e regulação dos componentes emocionais e afetivos da dor, tendo implicações em doenças que apresentam dor crônica, como a FM, e relação com comorbidades de desregulação afetiva nesses casos. Os resultados do PET demonstraram que nos indivíduos controles a sensibilidade e a tolerância à dor foram associadas a regiões cuja função está ligada principalmente à nocicepção, como o tálamo, ínsula, giro pré-central; já em indivíduos com FM, a sensibilidade e tolerância à dor foram associadas a regiões mais envolvidas na regulação emocional e estresse, como o giro-hipocampal e hipocampo. Tais evidências sugerem que a função diferenciada da DA em pacientes com FM pode contribuir para a percepção da dor crônica. Apesar dos resultados encontrados, esta é uma análise preliminar e, a fim de fundamentar tais resultados, seria necessário um estudo com um número maior de indivíduos.
Referência: Albrecht DS, Mackie PJ, Kareken DA, Hutchins GD, Chumin EJ, Christian BT, Yoder KK. Differential dopamine function in fibromyalgia. Brain Imaging Behav. 2015 Oct 24 [Epub ahead of print].
(Alerta submetido em 03/11/2015 e aceito em 11/11/2015)