
Placebos: seu papel no tratamento da dor crônica
“Eu vou receitar a você este placebo, se você não melhorar, vamos tentar outro mais potente” disse o médico ao seu paciente. A cena parece absurda, levando em consideração que placebos não possuem uma substancia ativa. Contudo, um pesquisad
“Eu vou receitar a você este placebo, se você não melhorar, vamos tentar outro mais potente” disse o médico ao seu paciente. A cena parece absurda, levando em consideração que placebos não possuem uma substancia ativa. Contudo, um pesquisador da Escola de Medicina de Harvard em Boston, Ted Kaptchuk, convidou a todos a considerarem que os placebos funcionam, e que alguns são inclusive mais potentes que outros.
Os estudos do pesquisador são baseados em anos de estudos e análise de diferentes trabalhos científicos que demonstram que um terço dos indivíduos expostos ao uso de placebos apresentaram respostas significativas de melhora, principalmente quando envolve condições que levam em consideração interpretações subjetivas, como a dor. Mais interessante ainda é o fato de estudos comprovarem que os efeitos dos placebos levam a alterações bioquímicas reais. Um exemplo é o estudo pioneiro realizado por Jon Levine em 1978, no qual pacientes pós-cirúrgicos receberam salina endovenosa acreditando ser morfina e tiveram redução da dor. A estes mesmos pacientes foi então administrado naloxona, um medicamento capaz de bloquear os efeitos da morfina, e estes indivíduos tiveram piora no quadro de dor. Este estudo foi revolucionário na defesa dos placebos e demonstrou não se tratar apenas de imaginação ou indução psicológica ao efeito, mas sim de uma analgesia com efeitos mensuráveis e alterações fisiológicas como a liberação de opioides endógenos, as endorfinas.
Atualmente, existem diversos estudos comprovando de maneira similar que placebos são capazes de ativar as mesmas vias nociceptivas moduladas por analgésicos já conhecidos. Uma característica importante nesta abordagem é nossa expectativa. Por exemplo, pacientes que foram primeiro tratados com um analgésico real (com princípio ativo), passam a apresentar maior resposta analgésica frente a subsequente administração de um placebo. Ou seja, a expectativa do alívio da dor parece influenciar no efeito do tratamento. Desta forma, o que os pesquisadores estão propondo é que seja fornecida ao paciente uma cartela que contenha pílulas do medicamento real e pílulas do medicamento placebo, ambas com as mesmas características organolépticas. Desta forma, o paciente não saberia quando estaria ingerindo o medicamento real ou o placebo e teria benefícios no sentido de diminuir os sintomas com as duas. A proposta é interessante, pois permite a diminuição da dosagem do medicamento real, diminuindo também efeitos adversos, dependência, tolerância e toxicidade, além dos custos financeiros.
De maneira extraordinária, Kaptchuk propõem ainda que devemos ir contra o que sempre se pregou sobre os placebos: que seu efeito vem do desconhecimento do individuo de que esta sendo tratado com um placebo! Kaptchuk pensa que o que deve ser feito é contar ao paciente que ele esta usando pílulas de placebo, mas que elas funcionam, que tem efeito e que ele tente este tratamento. Estudos avaliando esta possibilidade já começam a ser finalizados e comprovam que mesmo as pessoas sabendo que estão recebendo placebos elas tem alívio da dor, incluindo pacientes que foram não-responsivos a outras terapias.
Quem sabe medicamentos placebos, que sempre foram considerados sem importância na medicina, não passem a ser de primeira escolha para algumas condições, evitando assim o uso de medicamentos com efeitos colaterais tão desastrosos.
Referência: Marchant 1. Placebos: Honest fakery. Nature. 2016; 13;535(7611): Alerta submetido em 09/08/2016 e aceito em 09/08/2016.
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