Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

Secreção de perereca analgésica

DOL · Dor On Line Edição 154 · Maio 2012 ⭳ Baixar em PDF

A Phyllomedusa bicolor é um anfíbio da Família Hylidae encontrado na Amazônia e conhecido pela sua utilização na medicina tradicional de alguns povos indígenas. Indígenas de algumas etnias (Katukina, Kaxinawá) retiram a secreção de coloração branca que esse anfíbio anuro exala ao ser molestado e a conservam em palhetas de madeira para depois realizarem a aplicação da "vacina-do-sapo". Esse veneno da Phyllomedusa bicolor é rico em peptídeos que o animal utiliza como mecanismo de defesa. A aplicação da secreção é realizada na derme humana exposta por queimadura e é conhecida como “vacina-do-sapo”, “injeção-do-sapo” ou “kambô”. Os motivos que levam a uma pessoa buscar a aplicação da “vacina-do-sapo” são principalmente curiosidade e problemas de saúde como reumatismo e diabete(1). A atividade analgésica dos peptídeos encontrados nesta secreção já foi determinada(2) e, o perfil de afinidade a receptores opioides revelou uma seletividade muito elevada destes peptídeos para os sítios µ, como a maioria dos analgésicos opioides disponíveis no mercado farmacêutico. A dermorfina é um heptapeptídeo isolado da secreção e tem sido usado ilegalmente em corridas de cavalos como uma droga para melhorar o desempenho, devido à sua atividade analgésica (falamos sobre isso no alerta “Suco de sapo é a mais recente droga para cavalos de corrida”, boletim 144, ano 12). Outros peptídeos apresentam atividade contra bactérias Gram-positivas e negativas, cujos genes que os expressam já foram alvos de pesquisas para modificação genética de batatas, por exemplo(3). No Brasil, não apenas o comércio, mas o uso terapêutico de uma substância sem registro oficial na Agência de Vigilância Sanitária é proibido e que mortes por efeitos adversos já foram relatadas no uso do kampô. Referências: 1. Bernarde, P. S., Santos, R. A. Uso da “vacina-do-sapo” em Rondônia Utilização medicinal da secreção (“vacina-do-sapo”) do anfíbio kambô (Phyllomedusa bicolor) (Anura: Hylidae) por população não-indígena em Espigão do Oeste, Rondônia, Brasil. Revista Biotemas, 22 (3), 2009, 213 2. 2. Negri L, Erspamer GF, Severini C, Potenza RL, Melchiorri P, Erspamer V. Dermorphin-related peptides from the skin of Phyllomedusa bicolor and their amidated analogs activate two mu opioid receptor subtypes that modulate antinociception and catalepsy in the rat. Proc Natl Acad Sci U S A. 1992; 89(15):7203-7. 3. Osusky M, Osuska L, Kay W, Misra S. Genetic modification of potato against microbial diseases: in vitro and in plant activity of a dermaseptin B1 derivative, MsrA2. Theor Appl Genet. 2005 111(4):711-22.

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