Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

Sentimento de alívio transforma dor em prazer

DOL · Dor On Line Edição 152 · Março 2012 ⭳ Baixar em PDF

Já sabemos que o conceito de dor envolve aspectos físicos e emocionais. Ninguém tem a mesma percepção de dor que outrem, e isto porque esta sensação depende de um histórico pessoal. Vários estudos já foram realizados neste sentido, mostrando que o ambiente pode alterar a percepção de dor, como por exemplo, quando se toca uma música. Mas um trabalho recente da Universidade de Oslo, na Noruega, mostra que o contexto em que a dor é sentida altera sua percepção, podendo inclusive torná-la prazerosa. Este estudo avaliou 16 pacientes saudáveis em relação a 3 estímulos térmicos dolorosos: baixo, médio e intenso, dados na pele do antebraço. O protocolo consistiu em dar o estímulo baixo, seguido do moderado e depois retornar ao baixo. O mesmo aconteceu em relação aos estímulos moderado e intenso. O paciente sabia antecipadamente qual seria a dupla de estímulos a que seria submetido. Quando o estímulo baixo foi dado juntamente com o moderado, a sensação dolorosa associada ao moderado foi intensa. Entretanto, quando o estímulo moderado foi dado juntamente com o intenso, houve uma sensação de prazer associada ao estímulo moderado. Os dados foram confirmados por meio da avaliação de ressonância magnética de estruturas cerebrais. Quando a dor moderada foi percebida como agradável, as atividades da ínsula e da cíngula dorsal anterior (associadas à percepção afetiva da dor) foram significativamente atenuadas em relação ao estímulo moderado no contexto do estímulo leve. Além disso, houve aumento da atividade do circuito de recompensa, incluindo o córtex orbitofrontal medial e ventromedial. A manipulação do contexto também aumentou a conectividade funcional entre o circuito de prazer e recompensa e a substância cinzenta periaquedutal, responsável pela ativação de vias descendentes inibitórias. De fato, o contexto altera a percepção emocional da dor, podendo torná-la prazerosa, além de ter a capacidade de reduzir a sensação dolorosa física, por meio da estimulação descendente. A prática deste estudo é vista no dia a dia, mesmo em contextos não dolorosos: a sensação de alívio e prazer quando se sabe que “poderia ter sido pior”. Esta característica pode ser usada a favor de pacientes com dor crônica, onde apenas um alívio da dor é conseguido com o tratamento. Referência: Leknes S, Berna C, Lee MC, Snyder GD, Biele G, Tracey I. The importance of context: When relative relief renders pain pleasant. Pain. 2013; 154(3):402-10.

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