Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

Sexo do experimentador altera resultado de pesquisas em animais de laboratório

DOL · Dor On Line Edição 166 · Junho 2013 ⭳ Baixar em PDF

A incapacidade dos cientistas para replicar os resultados de pesquisas utilizando camundongos e ratos têm contribuído para a crescente preocupação sobre a confiabilidade de tais estudos. De acordo com um recente trabalho publicado no periódico Nature Methods, experimentadores do sexo masculino são capazes de induzir intenso estresse em roedores, podendo atenuar o comportamento de dor observado nesses animais, amplamente utilizados em estudos pré-clínicos. Os pesquisadores injetaram o agente inflamatório zimosam no tornozelo de ratos. Em seguida, um experimentador sentava-se na sala por 30 minutos, ou os animais eram mantidos sozinhos. Para a surpresa dos cientistas, os animais demonstraram uma diminuição na resposta à dor de cerca de 40% quando um homem, em vez de uma mulher permanecia na sala, com base em níveis de dor analisados utilizando uma escala de caretas faciais. Além disso, a camiseta utilizada por um homem na noite anterior, colocado na sala com os animais, apresentava o mesmo efeito. Outros experimentos demonstraram que os efeitos são causados por sinalizadores químicos, ou feromônios, que os homens liberam pela axila em concentrações mais elevadas do que as mulheres. Aprofundando os estudos ainda mais, os pesquisadores descobriram que esse efeito do cheiro masculino não estava agindo em vias de dor, como um analgésico. Em vez disso, os roedores apresentavam altos níveis de corticosterona, um hormônio que aparece em situações estressantes. Assim, o estresse estaria agindo de forma a anular temporariamente a resposta à dor. A mera presença dos pesquisadores homens produz uma resposta de estresse nos roedores equivalente à provocada por prender os roedores durante 15 minutos em um tubo ou forçá-los a nadar durante três minutos. Além disso, não foram apenas os homens que causaram o aumento do estresse em roedores, mas também o cheiro de machos de outras espécies como cães, hamsters e gatos também os afetava dessa forma. Os pesquisadores sugerem que a reação vem do senso de competição e não da identificação de um predador. Ratos machos são territoriais e competem com outros quando têm oportunidade de acasalar. Além disso, é importante ressaltar que o medo dos roedores não depende apenas do sexo de quem interage com ele, mas também da situação. Por exemplo, a presença do pesquisador na sala por mais do que 45 minutos no mesmo ambiente que os ratos, sem machucá-los, leva a redução dos níveis de estresse observado neles. Ou seja, é possível continuar as pesquisas, desde que essas medidas sejam tomadas para não comprometer os resultados. Sugere-se também que futuras pesquisas listem o gênero dos pesquisadores que interagiram com as cobaias. Referência: Sorge RE, Martin LJ, Isbester KA, Sotocinal SG, Rosen S, Tuttle AH, Wieskopf JS, Acland EL, Dokova A, Kadoura B, Leger P, Mapplebeck JC, McPhail M, Delaney A, Wigerblad G, Schumann AP, Quinn T, Frasnelli J, Svensson CI, Sternberg WF, Mogil JS. Olfactory exposure to males, including men, causes stress and related analgesia in rodents. Nat Methods. 2014 Apr 28. doi: 10.1038/nmeth.2935. [Epub ahead of print]

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