Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Edição de Dezembro de 2022 · Nº 269

Oportunidades e desafios do farmacêutico clínico no contexto interprofissional do tratamento da dor

Tradicionalmente o farmacêutico, enquanto profissional de saúde restrito aos limites físicos das farmácias, costumava ter um papel coadjuvante no processo de cuidado dos pacientes, e pouca integração com o restante da equipe multiprofissional

Oportunidades e desafios do farmacêutico clínico no contexto interprofissional do tratamento da dor Lucas Magedanz e Mariana Lôbo Moreira *

Tradicionalmente o farmacêutico, enquanto profissional de saúde restrito aos limites físicos das farmácias, costumava ter um papel coadjuvante no processo de cuidado dos pacientes, e pouca integração com o restante da equipe multiprofissional. Contudo, com o avanço da farmácia clínica, principalmente a partir da década de 90, suas responsabilidades em relação à segurança e efetividade da terapia medicamentosa expandiram. As principais mudanças se traduzem pela assunção de atitudes, comportamentos, compromissos, preocupações, valores éticos, funções, conhecimentos, responsabilidades e habilidades no provimento da farmacoterapia, com o objetivo de alcançar resultados terapêuticos definidos na saúde e na qualidade de vida do paciente. A farmácia clínica é entendida como a área da farmácia voltada à prática do uso seguro e racional de medicamentos, na qual os farmacêuticos prestam cuidado ao paciente com a finalidade de otimizar a farmacoterapia, promover saúde e bem-estar, e prevenir doenças. Para obter êxito, os farmacêuticos devem integrar a equipe multiprofissional de saúde, atuando em conjunto com todos os profissionais a fim de proporcionar uma abordagem individualizada da terapia farmacológica de maneira eficaz, segura e conveniente para todos os usuários. No Sistema Único de Saúde (SUS), as políticas públicas têm estimulado a atuação interprofissional, a preocupação com o uso de evidências científicas de qualidade, e a segurança em toda cadeia de processos do cuidado ao paciente. Especialmente à profissão farmacêutica, são necessários investimentos para reorganizar os processos de trabalho, qualificar os trabalhadores com ações de educação permanente e continuada, e reestruturar a agenda conforme diretrizes institucionais. Busca-se, desse modo, ampliar o acesso dos usuários e pacientes aos serviços farmacêuticos, contribuindo de forma efetiva para mudança do foco de atuação - anteriormente centrado no medicamento. Dessa forma, são notórios os esforços para a organização do serviço no contexto multiprofissional e interprofissional centrados no usuário, fundamentais para aplicarmos rotineiramente o Cuidado Farmacêutico [1]. Quando abordamos o contexto do tratamento da dor, a farmacoterapia racional e segura deve propiciar, fundamentalmente: (i) o controle adequado da dor; (ii) a orientação apropriada sobre os cuidados de armazenamento e uso dos medicamentos, bem como estratégias para promover a adesão ao tratamento; e (iii) extinguir eventuais problemas relacionados ao uso dos medicamentos e eventos adversos. Para alcançar essas metas, no entanto, modelos de serviço que integram o farmacêutico precisam ser desenvolvidos de maneira satisfatória.

Semerjian e colaboradores, em estudo publicado em 2019, descreveram um modelo de serviço de farmácia clínica ambulatorial como parte integrante da equipe multidisciplinar especializada no tratamento da dor. A questão principal foi entender o papel do farmacêutico, suas intervenções, e como traduzir a participação do farmacêutico em melhorias ao paciente no manejo da dor crônica. Para os autores, o profissional possibilitou a identificação de diversos problemas relacionados aos medicamentos e promoveu intervenções para o manejo da dor crônica. As questões envolveram principalmente o auxílio na gestão do estoque domiciliar, a correção de doses, o manejo de reações adversas, e o encaminhamento para outros profissionais de saúde conforme necessidades identificadas nas visitas. Neste serviço, o farmacêutico foi considerado peça fundamental para garantir a integralidade do cuidado, sobretudo fora do ambiente clínico [2]. Um outro estudo, realizado pela técnica de grupo focal com prestadores de cuidados atuantes na atenção primária em 2018, revelou que os farmacêuticos clínicos desempenharam um papel central no gerenciamento contínuo da terapia com opioides, incluindo a revisão do programa estadual de monitoramento de medicamentos prescritos, gerenciamento de triagem laboratorial, fornecimento de educação sobre medicamentos, promoção do uso de naloxona e redução gradual de opioides. Esse estudo também apontou algumas barreiras específicas para a expansão do papel do farmacêutico clínico no cuidado da dor, entre as quais citam-se: limitações do escopo da prática; suporte institucional insuficiente (escassez de funcionários e de tempo dedicado, treinamento insuficiente e falta de liderança interprofissional); e carência de espaço para a prática dos serviços possíveis de serem desenvolvidos. Por fim, os autores defendem que a liderança interprofissional é necessária para preparar farmacêuticos clínicos, a fim de alcançar os escopos da prática e expandir a capacidade técnica desses profissionais [3]. A liderança interprofissional contribui diretamente na melhoria da qualidade do cuidado e na continuidade e consistência dos serviços. Dentro desse contexto, cabe ao líder planejar, avaliar e gerenciar a cadeia de atenção à saúde, de maneira que estabeleça um ambiente cooperativo entre os membros da equipe a fim de atingir objetivos compartilhados [4]. No contexto hospitalar, Ryan e colaboradores realizaram, em 2013, um estudo sobre o impacto da participação do farmacêutico clínico no manejo da dor oncológica. Ao longo de 6 semanas, os farmacêuticos acompanharam 44 pacientes e foram responsáveis por 126 ajustes de dosagem, 41 manejos de reações adversas, 48 encaminhamentos a outros profissionais, e realizou mais de 160 interações com a equipe multiprofissional. Este estudo também verificou a opinião da equipe e dos pacientes sobre a participação do farmacêutico, a qual foi considerada positiva por parte dos dois grupos. Portanto, esse é mais um exemplo de que a interdisciplinaridade é extremamente benéfica na experiência do paciente e da equipe [5].

Os exemplos destacam o impacto da contribuição farmacêutica nos três níveis de atenção em saúde. Vale ressaltar, no entanto, que os resultados apresentados foram obtidos num contexto interprofissional que dispunha do farmacêutico atuando de forma ativa e integrada ao processo de cuidado do paciente. Os cenários demonstraram que, à medida que o profissional assume responsabilidades relacionadas à sua área de especialização, os processos geraram resultados mais robustos e padronizados. Logo, a prática do cuidado farmacêutico contribui diretamente no tratamento da dor, de maneira que as intervenções promovidas por esses serviços afetam positivamente o paciente e o empenho de toda equipe de saúde.

Referências: [1] Destro, Délcia Regina et al. Desafios para o cuidado farmacêutico na Atenção Primária à Saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva [online]. 2021, v. 31, n. 03. [2] Semerjian M, Durham MJ, Mirzaian E, Lou M, Richeimer SH. Clinical Pharmacy Services in a Multidisciplinary Specialty Pain Clinic. Pain Pract. 2019 Mar;19(3):303-309. [3] Giannitrapani, K.F., Glassman, P.A., Vang, D. et al. Expanding the role of clinical pharmacists on interdisciplinary primary care teams for chronic pain and opioid management. BMC Fam Pract 19, 107, 2018. [4] KAINI, Bachchu Kailash. Interprofessional Care and Role of Team Leaders. Journal of the Nepal Medical Association, v. 53, n. 197, 2015. [5] Ryan N, Chambers C, Ralph C, England D, Cusano F. Evaluation of clinical pharmacists' follow-up service in an oncology pain clinic. J Oncol Pharm Pract. 2013 Jun;19(2):151-8.

* Alunos de mestrado - UnB - disciplina de Pós-Graduação - Ação Multi-Institucional de Divulgação Científica – DOL - Dor On-Line

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