
Conceituando a dor
Em 1964 Merskey conceituou a dor como uma experiência desagradável a qual nós associamos primariamente com lesão tecidual ou descrevemos em termos de tal lesão, ou ambas. Posteriormente, a IASP (International Association of the Study of Pain) aceitou, com algumas
Em 1964 Merskey conceituou a dor como “uma experiência desagradável a qual nós associamos primariamente com lesão tecidual ou descrevemos em termos de tal lesão, ou ambas”. Posteriormente, a IASP (International Association of the Study of Pain) aceitou, com algumas modificações, a definição de Merskey, incluindo o aspecto sensorial da experiência da dor e criando a definição de dor mais aceita, e atualmente: “experiência sensorial e emocional desagradável, associada a dano tecidual potencial ou de fato ou, ainda, descrita em termos que sugerem tal dano”.
Apesar do avançado entendimento da dor, ainda é difícil definir claramente a experiência dolorosa. Essa dificuldade existe porque a dor é uma experiência complexa e subjetiva (que é própria de um ou de vários sujeitos mas que não é válida para todos), envolvendo aspectos psicológicos, fisiológicos, patofisiológicos, emocionais e afetivos. Criar um conceito que aborde com poucas palavras todos esses aspectos mencionados é tarefa nada fácil. A IASP, por exemplo, tentando tornar o conceito próximo do ideal, ou seja, que considerasse todos os aspectos inerentes à dor, criou o conceito citado acima. Enquanto a primeira parte da definição (“experiência sensorial e emocional desagradável”) é entendida completamente, a segunda parte (“dano tecidual potencial ou de fato”) é confusa, tornando tal descrição problemática e consequentemente dificultando a comunicação da experiência da dor.
Outra dificuldade tem sido incluir no conceito tanto a dor causada por desordens físicas quanto aquelas causadas por fatores de origem psicológica, como, por exemplo, a “dor orgânica” e a “dor psicogênica”, respectivamente. Além disso, os pacientes são, na maioria das vezes, incapazes de diferenciar a causa de suas desordens, ou seja, utilizam termos comuns para designar fatores causadores da experiência dolorosa. De acordo com Merskey, cada indivíduo aprende a aplicação do termo "dor" com base em experiências relacionadas à injúrias sofridas durante as fases iniciais da vida (a linguagem utilizada é adaptada para servir a função da comunicação) e, dessa maneira, a descrição de experiências estranhas torna-se particularmente difícil. Isso explica, por exemplo, porque muitos indivíduos relatam suas experiências dolorosas utilizando linguagem metafórica para designar o tipo de sensação, tais como dor do tipo agulhada, em queimação, irritante ou torturante.
A dor, de modo geral, para ser definida satisfatoriamente, deve envolver pelo menos dois componentes: sensorial-discriminativo e emocional-afetivo-cognitivo. O primeiro componente refere-se à detecção da intensidade, localização, duração, padrão temporal e qualidade do estímulo nocivo; já o segundo componente refere-se à reação emocional (por exemplo, medo e ira) decorrente da percepção, ou seja, a integração do estímulo nocivo com áreas corticais e sistema límbico. É chamada de nocicepção a detecção seletiva dos estímulos nocivos (estímulo nociceptivo), sejam eles mecânicos, térmicos ou químicos. A detecção e o transporte da informação nociceptiva formam um sistema sensorial da dor altamente especializado. Isso significa que a informação nociceptiva, após sua geração, é transportada até o córtex somatosensorial e sistema límbico através de vias neurais distintas das vias que transportam, por exemplo, a sensação de tato. As principais vias neurais como, por exemplo, a via espinotalâmica, fazem conecção com o tálamo antes de atingir o córtex e sistema límbico, onde a informação nociceptiva é percebida e interpretada.
Assim, enquanto o termo nocicepção refere-se à sensação, o termo dor refere-se ao conjunto formado pela sensação e percepção do estímulo nociceptivo. Portanto,
o termo dor é adequado para designar a sensação e percepção do estímulo nocivo em humanos, mas não em animais. A incapacidade dos animais de comunicar sua experiência desagradável e, desta forma, informar a percepção do estímulo nocivo, torna a utilização do termo nocicepção mais adequado para estudo de dor em modelos animais. Uma proposta de definição a fim de provocar discussão seria: “dor é uma sensação nociceptiva induzida em um tecido normal ou injuriado por estímulos físicos e/ou químicos de origem endógena e/ou exógena, assim como por disfunções patológicas e/ou psicológicas, cuja percepção causa emoções desagradáveis e/ou comportamentos aversivos”.
* Farmacêutico-bioquímico, Mestrando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP ** Médico, Professor Titular do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP *** Médico, Professor Titular do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP






