
Especialização em dor orofacial: velhos problemas, novas preocupações
Desde que a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP - International Association for Study of Pain) distinguiu a dor patológica, ou seja, um estado doloroso que não pode ser classificado como mecanismo de defesa contra estímulos injuriantes
Desde que a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP - International Association for Study of Pain) distinguiu a “dor patológica”, ou seja, um estado doloroso que não pode ser classificado como mecanismo de defesa contra estímulos injuriantes, da “dor fisiológica”, criou-se também a noção de que alguns tipos de dor deveriam ser tratados por Especialistas nesta “nova” patologia. Se antes a dor era vista como um sintoma ou sinal associado a uma determinada patologia e, portanto, devendo ser tratada pelo Especialista na área clínica adequada, no atual momento passou a ser reconhecida como uma especialidade clínica isolada, embora corretamente seja tratada no âmbito multidisciplinar. Mas a “dor” mudou? Na realidade não. Contudo mudou-se a visão e o enfoque dado a esta “percepção desagradável originada nas vias sensoriais nociceptivas” Este novo enfoque dado à dor chegou a este ponto em boa parte devido aos avanços no conhecimento dos mecanismos envolvidos na gênese e controle de vários estados dolorosos. Entretanto, embora o conhecimento atual seja amplo e exista no mercado um grande arsenal de medicamentos disponível para tratamento das várias modalidades dolorosas, é importante ressaltar que estamos longe do controle efetivo de vários tipos de dor, sobretudo das dores crônicas. Apesar disto, não nos resta dúvida de que, qualquer que seja a especialidade envolvida no controle da dor, deve-se esperar que o profissional tenha um bom conhecimento sobre os mecanismos moleculares envolvidos nos vários processos dolorosos, assim como sobre os mecanismos de ação das diferentes drogas utilizadas no seu tratamento. Desta forma muito nos preocupa a recente criação dos Cursos de Especialização em “Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial”, os quais têm como objetivo capacitar Cirurgiões Dentistas a tratarem de dores originadas na região da face e nas articulações temporomandibulares. Apesar desta Especialidade ter respaldo legal por parte do Conselho Federal de Odontologia (CFO) e do Ministério de Educação e Cultura (MEC), seria pertinente levantarmos algumas questões com relação à especialidade do grupo docente envolvido nestes cursos e, consequentemente, ao conteúdo programático. De fato, pelo que pudemos constatar, a maioria dos cursos de Especialização em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial é oferecida por profissionais não relacionados diretamente ao estudo da dor e, muitas vezes, são Professores de outras especialidades odontológicas que “se aventuram” n ensino dos mecanismos da dor. O mesmo ocorre com relação à prática terapêutica ensinada nestes cursos. Se, por um lado, a confecção e utilização de placas oclusais é vastamente difundida, por outro, a terapia farmacológica é subestimada. Isto talvez seja reflexo de um ensino deficiente em Farmacologia nos cursos de Graduação, porém, não justifica o mesmo em cursos de Especialização.
Infelizmente, existe equivocadamente uma noção não comprovada cientificamente de que as dores da região orofacial possuem, por definição, mecanismos totalmente diferentes das dores em outros segmentos do corpo. Este fato influencia diretamente a visão proporcionada ao Especialista em dor orofacial quanto às terapias a serem utilizadas. Esta postura tem servido para justificar um curso de Especialização que, na maioria das vezes, despreza o conhecimento básico sobre os mecanismos envolvidos na dor e analgesia. Resta-nos então questionarmos se os Cursos de Especialização em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, do modo como têm sido oferecidos, capacitam o profissional a prescrever medicamentos para o controle das dores orofaciais resistentes aos tratamentos convencionais. Este Especialista teria embasamento para análise crítica de um novo medicamento lançado no mercado para o controle da dor? Ainda, teria condições de relacionar o tipo de dor ao medicamento adequado para o tratamento e condições de avaliar possíveis efeitos colaterais relacionados ao uso deste medicamento? Enfim, não nos parece que “Especialista em placas e ajustes oclusais” seja sinônimo de “Especialista em dor”.
De qualquer forma vale a pena chamar a atenção das instituições envolvidas nos Cursos de Especialização em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial para este fato e zelarmos para que, sobretudo as instituições Estaduais e Federais de ensino superior em Odontologia, não se deixem levar apenas pelo aspecto econômico, principalmente neste momento em que se esquece facilmente que o conhecimento científico e a conduta clínica devem ser aliados à ética. Além disso, com base nestes fatos, talvez seja oportuna, para não dizer essencial, a unificação destes Cursos em torno de um currículo programático mínimo para a formação dos Especialistas.
* Cirurgião-dentista, Doutorando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP.








