
Acupuntura nos dias de hoje
Pouco tempo atrás o assunto abordado em nosso Editorial do Mês foi a Homeopatia, tema considerado uma pedra no sapato de pesquisadores e cientistas. Neste mês, continuando nossa abordagem de assuntos polêmicos, voltamos nossa atenção para a Acupuntura, que, apesar
Pouco tempo atrás o assunto abordado em nosso Editorial do Mês foi a Homeopatia, tema considerado uma “pedra no sapato” de pesquisadores e cientistas. Neste mês, continuando nossa abordagem de assuntos polêmicos, voltamos nossa atenção para a Acupuntura, que, apesar de reconhecida como especialidade médica no Brasil há dez anos, ainda gera discussões com relação à comprovação de sua eficácia baseada em dados científicos. Ainda assim, a Acupuntura é um grande aliado no combate da dor, sendo usada, também, no tratamento da náusea pós-operatória, acessos de vômitos, asma, acidente vascular encefálico (AVE) e abuso de drogas, muito embora a população possa ser dividida em responsivos e não responsivos ao tratamento com agulhas, tal como os animais de laboratório.
A Acupuntura é eficaz somente em alguns pontos da superfície corpórea, conhecidos como pontos de acupuntura. Dos cerca de dois mil pontos identificados, 365 foram divididos em 14 grupos principais. Os pontos de um mesmo grupo são ligados por uma linha imaginária na superfície do corpo, conhecida como meridiano. Foram descritos doze meridianos principais e oito secundários, que controlam pulmões, coração, fígado, baço, bexiga, estômago, intestinos e outros órgãos. Além deles, dois meridianos centrais atravessam o corpo na parte frontal e pelas costas. De acordo com a medicina tradicional chinesa, as doenças seriam distúrbios na circulação da energia do corpo (Chi ou Qi) que passa por essas linhas, isto é, um distúrbio entre o ying e o yang. Interessantemente, vários pesquisadores, comparando estes pontos com um atlas anatômico, concluíram que 309 pontos estão situados sobre ou muito próximos aos feixes nervosos, enquanto que 286 estão sobre ou muito próximos aos principais vasos sangúíneos, que são caminhos ou envolvem pequenos feixes de fibras nervosas.
Algumas explicações científicas para os efeitos da Acupuntura se baseiam no fato de que estímulos nocivos (como, por exemplo, uma injúria tecidual) excitariam os nociceptores polimodais, cujo impulso, conduzido pelas fibras nervosas do tipo C, atingiriam neurônios do tipo WDR (de ampla faixa de reconhecimento de estímulos) da medula espinal. A utilização de agulhas em pontos específicos estimularia as fibras nervosas do tipo Aô, as quais liberariam substâncias na medula espinal, inibindo a condução do impulso nociceptivo. Tais substâncias poderiam ser neurotransmissores ou endorfinas, dependendo do local estimulado.
Dentre os neurotransmissores, duas vias são muito estudadas: a via serotoninérgica e a via noradrenérgica, sendo que os primeiros estudos sugeriram que, sem serotonina, a Acupuntura não funcionaria.
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) demonstraram, através de experimentação em animais, a necessidade de serotonina para o funcionamento da Acupuntura no tratamento da úlcera gástrica. O tratamento utilizou uma modalidade chamada moxabustão (também chamada de moxa), que compreende o aquecimento das agulhas com bastão em brasa de folhas secas da planta Artemísia vulgaris. O experimento envolveu um grupo de ratos tratados com agulhas em pontos recomendados pela Acupuntura (na parte lateral das patas), um outro grupo com agulhas colocadas em pontos fictícios, e um terceiro grupo não tratado. Todos os animais haviam sido tratados com indometacina (medicamento antiinflamatório que causa úlceras gástricas) e os animais submetidos ao tratamento com moxa apresentaram menos lesões do que os dois outros grupos. Em sequência, para verificar o papel da serotonina na diminuição das lesões, foi administrada a um grupo de animais, a paraclorofenilalanina (PCPA), que bloqueia a produção deste neurotransmissor. Desta vez não houve efeito das agulhas sobre a diminuição das lesões e o efeito da moxa foi significativamente menor (Sugai et al, 2004;
Tabosa et al, 2004). Os autores destes estudos também demonstraram resultados promissores no tratamento de pacientes que sofriam de apnéia do sono. Ainda nesta linha de pensamento, outros pesquisadores constataram que, quando aplicadas corretamente, as agulhas ativam áreas produtoras de endorfinas e áreas associadas à inibição da dor.
De modo semelhante aos debates envolvendo a Homeopatia, o questionamento sobre a eficácia da Acupuntura muitas vezes recai sobre as metodologias utilizadas, comparando-as ao placebo, isto é, um efeito psicológico provocado pela própria introdução da agulha, ou à aplicação da mesma em locais divergentes dos pontos recomendados. Assim, devido a vários estudos que conduzem a resultados equivocados por causa da metodologia utilizada, tamanho da amostra ou outros fatores, o Instituto Nacional de Saúde Norte-Americano (NIH) publicou, em 1997, um Consenso cujo objetivo foi fornecer aos provedores de saúde, pacientes e ao público em geral, uma avaliação responsável do uso e eficácia da Acupuntura sob variadas condições (NIH Consensus Statement on
A partir deste Consenso, concluiu-se que, embora a Acupuntura seja uma ciência muito antiga e eficaz em diversas situações, os resultados que atestam sua eficácia ainda são incipientes, de modo que ela não deve ser considerada uma terapia independente da medicina convencional, sendo imprescindível que o paciente realize os exames necessários para diagnosticar a doença com precisão. Caso seja aplicada sem orientação médica, o paciente pode muitas vezes sentir-se curado ao cessar a dor quando, na verdade, o efeito é somente paliativo e a doença está mascarada, isto é, ocorre apenas alívio dos sintomas.
Nos EUA, o Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa (NCCAM - http://nccam.nih.gov/health/whatiscam/) procura informar aos pacientes sobre terapias alternativas e complementares, e o tópico sobre a Acupuntura inclui o que é, onde é usada, a eficácia e segurança da mesma, inclusive salientando a necessidade de procura por profissionais devidamente habilitados para aplicar o tratamento. Vinculado ao NIH, a Biblioteca Nacional de Medicina (NLM), site oficial das publicações médicas, possui uma página com inúmeras referências sobre o assunto (http: //www.nim.nih.gov/pubs/cbm/acupuncture.html).
No Brasil tem havido uma proliferação dos cursos de Acupuntura com curta duração, onde muitos palestrantes que não possuem formação científica e/ou médica se aventuram a ensinar. Conseguentemente, “recém-especialistas” abrem clínicas e anunciam curas milagrosas com base neste tipo de terapia. Tal ato deveria ser coibido pelos Conselhos Profissionais e entidades de classe, que deveriam zelar para que os cursos nesta especialidade fossem ministrados e mantidos apenas por instituições de reputação e competência conhecidas.
* Gisele C.M. Sugai, Anaflávia de O. Freire, Angela Tabosa, Ysao Yamamura, Sérgio Tufik, Luiz Eugênio A.M. Mello. Serotonin involvement in the electroacupuncture- and moxibustion-induced gastric emptying in rats. Physiology & Behavior 82 (2004) 855-
* Angela Tabosa, Ysao Yamamura, Eduardo Romão Forno, Luiz Eugênio A. M. Mello. A Comparative Study of the Effects of Electroacupuncture and Moxibustion in the Gastrointestinal Motility of the Rat. Digestive Diseases and Sciences, Vol. 49, No. 4 (April 2004), pp. 602-610 (2004).
* Farmacêutico-Bioquímico, Mestrando do Depto. de Farmacologia da FMRP-USP







