Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Edição de Julho de 2005 · Nº 72

O controle da dor pós-operatória: um desafio para a equipe multidisciplinar

Embora a dor que acompanha o período pós-operatório seja um fenômeno fisiológico esperado, seu controle nem sempre é preocupação da equipe multidisciplinar de saúde. Os pacientes operados desejam analgesia perioperatória perfeita, o que lhes é, muitas vezes, garantido

Embora a dor que acompanha o período pós-operatório seja um fenômeno fisiológico esperado, seu controle nem sempre é preocupação da equipe multidisciplinar de saúde. Os pacientes operados desejam analgesia perioperatória perfeita, o que lhes é, muitas vezes, garantido. Ao contrário, estes mesmos pacientes esperam sofrer algum tipo de dor após o ato cirúrgico. Parece, então, que tanto pacientes quanto equipe concebem a presença de dor durante o período pós-operatório como esperada. A percepção da dor e, sobretudo, sua persistência, produzem perturbações de diversas naturezas, causando modificações do comportamento, gerando angústia e ansiedade, perturbações cardiovasculares e respiratórias, além de poder ocorrer o desenvolvimento de uma dor crônica. A analgesia adequada durante o período pós-operatório contribui para a prevenção de complicações das funções pulmonar e cardiovascular, particularmente importantes naqueles pacientes onde há condições co-mórbidas como hipertensão. Dentre os fatores predisponentes ao inadequado controle da dor pós-operatória estão: a) fatores farmacocinéticos, ou seja, a quantidade de analgésicos necessária para manter adequada a analgesia pós-cirúrgica. Entretanto, estes variam amplamente. Por isso, existe a necessidade da constante avaliação da dor e da individualização da dose do analgésico; b) fatores fisiológicos - alguns pesquisadores têm sugerido que o nível de atividade dos sistemas espinais inibitórios descendentes no momento da cirurgia pode determinar mudanças plásticas que aparecem em nível medular e alterar a percepção da dor nas horas e dias seguintes; c) fatores psicológicos - a ansiedade e a dor estão extremamente relacionadas. Tem sido observado que pacientes com traços de ansiedade pronunciada em sua personalidade têm tendência a apresentar dor no pós- operatório mais intensa que os demais; d) intervenção cirúrgica - a técnica cirúrgica também pode afetar enormemente a dor pós-operatória e a utilização de analgésicos; e) atitude da equipe multidisciplinar em face à dor - em geral, a equipe raramente tem como objetivo a obtenção de abolição completa da dor e, desta forma, superestima a incidência de efeitos colaterais e risco de dependência dos opióides prescritos. Muitos dos obstáculos encontrados para impedir o progresso do tratamento da dor pós-operatória devem-se à mentalidade dos profissionais de saúde e às dificuldades em mudá-la. A introdução dos sistemas de ACP (analgesia controlada pelo paciente), que contornaram a necessidade de presença do profissional e permitem o controle dos tratamentos analgésicos pelo próprio paciente, deveria melhorar o tratamento da dor pós-operatória. Contudo, diversos estudos demonstraram que isso não acontece. Os próprios pacientes não administram a quantidade necessária para total abolição da dor. Do mesmo modo que a equipe, parece que os pacientes não almejam o desaparecimento completo da dor e estão preocupados com os efeitos colaterais dos analgésicos. É unanimidade entre os especialistas que, para se melhorar este quadro, é indispensável a realização de educação dos profissionais e de melhoria na comunicação com os pacientes. O tratamento realizado em parceria entre as pessoas que sofrem de dor e a equipe multidisciplinar, trocando informações e resolvendo problemas conjuntamente, também tem sido proposto. O trabalho em conjunto deveria iniciar-se antes do ato cirúrgico, durante as consultas pré-operatórias, e estender-se durante todo o período de recuperação, incluindo aquele após a alta hospitalar.

* Enfermeira, Doutoranda do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP

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