Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

É possível realizar experimentos de dor in vitro?

Em minha entrevista de doutorado, um dos membros da banca me questionou a respeito da tendência cada vez maior em substituir os experimentos em animais por ensaios in vitro e como isso poderia ser aplicado ao estudo da dor. Minha resposta a

DOL · Dor On Line Edição 205 · Agosto 2017 ⭳ Baixar em PDF

Em minha entrevista de doutorado, um dos membros da banca me questionou a respeito da tendência cada vez maior em substituir os experimentos em animais por ensaios in vitro e como isso poderia ser aplicado ao estudo da dor. Minha resposta a ele foi a mesma que tenho dado a amigos que não são da área científica e a alunos de graduação nos últimos anos: não é possível estudar dor in vitro.* Obviamente, levamos em conta todos os protocolos internacionais para a preservação do bem-estar do animal, mas infelizmente não vejo possibilidade de se analisar um novo alvo terapêutico ou ainda testar uma nova droga analgésica sem o uso de animais. Por quê?
Porque o reconhecimento, transmissão e controle da dor envolvem inúmeros sistemas, células e vias de sinalização, todos absolutamente integrados, tornando impossível a reprodução fora de um organismo vivo.
A literatura científica já vem mostrando a complexidade do sistema, mas um trabalho lindíssimo publicado recentemente em uma das revistas científicas de maior impacto mostra que a complexidade do sistema nociceptivo é maior do que imaginávamos. Usando ferramentas muito elegantes, os autores mostram que um pequeno estímulo, mesmo que de poucos segundos, já é suficiente para mobilizar respostas globais no animal. Para âqueles que têm mais intimidade com a literatura cientifica, a leitura vale muito a pena!
Nós, estudantes e pesquisadores da área de dor, nos guiamos diariamente pela ética e em como podemos avançar nos estudos de dor sem o sofrimento animal. No entanto, eles são necessários. E novos fármacos também. Ainda ouvimos pacientes que dizem ter “se acostumado a viver com dor”...
Que o respeito e equilíbrio nos façam avançar a crescer, e nunca desistir!
*As opiniões apresentadas aqui refletem as opiniões pessoais da responsável pelo alerta.
Referência: Browne LE, Latremoliere A, Lehnert BP, Grantham A, Ward C, Alexandre C, Costigan M, Michoud F, Roberson DP, Ginty DD, Woolf CJ. Time- Resolved Fast Mammalian Behavior Reveals the Complexity of Protective Pain Responses. Cell Rep. 2017; 20(1):89-98.
Alerta submetido em 13/07/2017 e aceito em 25/07/2017.

Caderno de Ciência e Tecnologia

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