
Impacto nas recomendações de tratamento feitas por profissionais
brancos para pacientes negros As diferenças no tratamento da dor provocada por disparidades raciais já são bem descritas na literatura, conforme descrito na edição de julho de 2020 do Dol. O epicentro desse paradigma está na ansiedade
brancos para pacientes negros
As diferenças no tratamento da dor provocada por disparidades raciais já são bem descritas na literatura, conforme descrito na edição de julho de 2020 do Dol. O
epicentro desse paradigma está na ansiedade intergrupal, ou seja, o desconforto experimentado na interação com um grupo que não compartilha das mesmas características, sendo associado com a preferência de se relacionar com a mesma raça concordante. A questão é que profissionais de saúde já experimentam maior ansiedade ao tratar a dor crônica, principalmente com opioides, por considerarem um tratamento desafiador e oneroso, agravado pela atual crise desta classe de medicamentos.
Para avaliar como a ansiedade intergrupal afeta as recomendações de tratamento de profissionais brancos para pacientes negros, o presente estudo submeteu os participantes (médicos residentes e bolsistas de universidades dos Estados Unidos) a consultas com pacientes virtuais negros e brancos com diversos status econômicos. Após a consulta, os profissionais avaliaram e definiram o tratamento para a dor lombar crônica de cada paciente. Os resultados demonstraram maior ansiedade atrelada ao maior desconforto para tratar pacientes negros levando a maior recomendação de tratamento com opioides em detrimento de analgésicos não-opioides. Em contrapartida, um maior estado de conforto frente ao paciente levou a recomendações de tratamento não-opioide. Outro achado é que o maior desconforto provocado pela ansiedade levou a maior encaminhamento de pacientes negros para especialistas em dor.
A teoria da ansiedade intergrupos auxilia no entendimento desses resultados. De acordo com esta teoria o desconforto surge da interação entre os traços de uma pessoa (diferenças individuais) e fatores situacionais, como por exemplo, falta de familiaridade e informação sobre um grupo racial diferente. Estes por sua vez, fomentam expectativas negativas como, por exemplo, “esta interação será difícil”, aliado ao olhar negativo já existente ao tratamento da dor crônica.
A recomendação para especialistas em dor pode ser a tentativa do profissional de saúde em gerenciar seu desconforto e evitar possíveis conflitos. Esse senso de autopreservação também é a chave para entender a maior prescrição de opioides, já que estes medicamentos exigem menos persuasão, educação e possibilidades de conflito em detrimento dos não-opioides.
Assim, tais resultados corroboram para o desenvolvimento de pesquisas nesta área que apresentem um atendimento mais naturalista, ou seja, que mimetizem ao máximo o ambiente real de serviço em saúde, além disso, também é necessário avaliar outros modelos de disparidades entre profissional e paciente, para que desta forma haja maior conscientização da ansiedade intergrupal e maior avanço global para reduzir tais disparidades no tratamento para a dor.
Referência: Grant AD, Miller MM, Hollingshead NA, Anastas TM, Hirsh AT. Intergroup anxiety in pain care: impact on treatment recommendations made by white providers for black patients. Pain. 2020;161(6):1264-1269. doi: 10.1097/j.pain.0000000000001806
Alerta postado em 15/09/2020 e aceito em 26/10/2020.
Escrito por Giovanna França Alves.