
Miotoxinas de serpentes causam efluxo de ATP e potássio, levando a dano celular e dor
Cobra ou Serpente? Ambos os termos são aceitos pelo dicionário, mas o termo serpente é o mais correto. O termo "cobra" é utilizado apenas para um tipo de serpente, as Najas da África e Ásia. Da mesma forma que os portugueses na época do descobrimento do Brasil atribuíram o nome de índios aos nativos aqui encontrados, pois acreditavam ter chegado à Índia, também atribuíram o nome de "cobra" às serpentes, acreditando se tratar das verdadeiras cobras (Naja da Índia). No Brasil não é errado utilizar o termo "cobra", porém, no resto do mundo, é recomendável utilizar o termo "serpente", para evitar qualquer desentendimento. Menos de 30% das serpentes conhecidas no País são peçonhentas. Há 70 espécies, divididas em dois grupos: Crotalíneos (Jararaca, Cascavel e Surucucu) e Elapíneos (Coral verdadeira). Elas fazem perto de 20 mil vítimas por ano. O veneno de todas essas serpentes pode matar uma pessoa em pouco tempo. A reação à picada vai depender de variáveis como a parte do corpo que foi atingida, quantidade de veneno injetada, peso da vítima e o tipo de serpente. Por isso, especialistas do Butantã recomendam às vítimas que recebam o soro o mais rápido possível, de preferência nas primeiras três horas após o ataque. As miotoxinas (toxinas cujos alvos são os músculos) desempenham um papel importante na patogênese do envenenamento causada por picadas de serpentes. Em grande parte do mundo este é um problema de saúde pública relevante. Pesquisadores demonstraram que duas miotoxinas que são os principais constituintes do veneno de Bothrops asper, um representante mortal na América Latina, induzem a liberação de grandes quantidades de íons K + e adenosina trifosfato (ATP) do músculo esquelético. O ATP liberado amplifica o efeito da miotoxinas, agindo como um sinal de perigo que se espalha, e causa mais danos ao agir sobre os receptores purinérgicos, moléculas de membrana celular envolvidas em várias funções celulares, tais como a reatividade vascular, apoptose e secreção de citocinas. Além disso, a liberação de ATP e K+ contribuem para a reação característica de dor destes acidentes por animais peçonhentos. Como as miotoxinas da Bothrops asper são representativas de uma grande família de miotoxinas com estrutura da fosfolipase A2 (enzima que catalisa a hidrólise de fosfolípides para formar ácido araquidônico, precursor dos leucotrienos, prostaglandinas e tromboxanos), estes resultados deverão ser de importância geral para envenenamento ofídico. Além disso, eles sugerem as possíveis abordagens terapêuticas para limitar a extensão dos danos nos tecidos musculares, baseado em drogas anti-purinérgicas. Referência: Cintra-Francischinelli M, Caccin P, Chiavegato A, Pizzo P, Carmignoto G, Angulo Y, Lomonte B, Gutiérrez JM, Montecucco C. Bothrops snake myotoxins induce a large efflux of ATP and potassium with spreading of cell damage and pain. Proc Natl Acad Sci U S A. 2010 Aug 10;107(32):14140-5. Epub 2010 Jul 26.