
Oxycontin e seus riscos
O OxyContin, opioide com ação semelhante à morfina, foi lançado há duas décadas pela farmacêutica Purdue Pharma com a proposta de aliviar a dor por 12 horas, duas vezes mais que a maioria dos demais medicamentos. Desde então, o OxyContin to
O OxyContin, opioide com ação semelhante à morfina, foi lançado há duas décadas pela farmacêutica Purdue Pharma com a proposta de aliviar a dor por 12 horas, duas vezes mais que a maioria dos demais medicamentos. Desde então, o OxyContin tornou-se o analgésico mais vendido nos Estados Unidos da da América (EUA), porém a investigação realizada pela revista Times em documentos confidenciais da indústria farmacêutica encontrou que o efeito da droga termina antes de 12 horas em muitas pessoas. Quando o efeito não permanece um tempo considerável, os pacientes podem experimentar sintomas de abstinência, como dores no corpo, náuseas e ansiedade, o que os leva ao uso da substância. Quando estes sintomas de abstinência são aliviados pela próxima dose, cria-se um ciclo que promove a dependência. Tal problemática demonstra o motivo pelo qual tantas pessoas tornam-se dependentes, podendo se tornar adictas, de OxyContin e o porquê deste medicamento ser um dos mais abusados na história dos EUA.
Segundo os documentos avaliados pela revista Times, a Purdue Pharma tem conhecimento do problema há décadas e ainda assim mantém a propaganda de alívio por 12 horas. Além disso, a mesma empresa sugere que médicos prescrevam doses maiores quando os pacientes se queixarem que o medicamento alivia a dor por menos de 12 horas (alguns médicos estavam prescrevendo as mesmas doses em intervalos mais curtos, o que “feria” a propaganda da duração por 12 horas de uma única dose). Tal abordagem é arriscada, uma vez que este esquema terapêutico pode aumentar o risco de dependência/adicção, além de superdosagem e de morte.
Durante o processo para se obter a aprovação da FDA, os pesquisadores da Purdue Pharma realizaram diversos ensaios clínicos. Em alguns deles, muitos pacientes que receberam OxyContin desistiram de participar do estudo porque consideraram o tratamento "ineficaz". Dessa maneira, os pesquisadores mudaram as regras do estudo para permitir que os pacientes tomassem analgésicos suplementares, conhecidos como "medicação de resgate," entre o intervalo de 12 horas da administração de OxyContin. Em uma declaração escrita pela porta-voz Sarah Peddicord há a afirmação de que embora a FDA tenha aprovado o uso de OxyContin a cada 12 horas, os médicos devem ter a ciência que o período em que o efeito da droga permanece pode variar de indivíduo para indivíduo.
O número de processo judiciais e relato de especialistas contra a Purdue Pharma tem aumentado significativamente, porém ainda assim o marketing das "12 horas de efeito" e prescrições de OxyContin continua em forte ascensão. Os advogados descrevem que o esquema de administração de 12 horas representa uma vantagem competitiva significativa de OxyContin em relação a outros produtos. No entanto, algumas clínicas de saúde pública de San Francisco pararam de distribuir o analgésico desde 2005, baseado em parte no relato dos pacientes que disseram que usavam depois de oito horas e no fato de que a morfina genérica tem uma duração semelhante e custa menos.
A indústria farmacêutica é um agente fundamental no processo saúde-doença. É importante destacar, entretanto, a necessidade de uma visão crítica e reflexiva não só da população que faz uso dos produtos farmacêuticos, mas principalmente dos profissionais que os prescrevem.
Referência: Ryan, Harriet; Girion, Lisa; Glover, Scott. 'You want a description of hell?! OxyContin's 12-hour problem. A Times Investigation: [Internet]. Los Angeles, EUA [May 5, 2016, citado em 26/06/2016]. Disponível em http://static.latimes.com/oxycontin-partt. Alerta submetido em 15/05/2016 e aceito em 15/05/2016.