
Pesquisa dos mecanismos envolvidos no efeito placebo: trazendo de volta o debate sobre a ética experimental
Os mecanismos envolvidos no efeito placebo ainda não são bem compreendidos, de modo que a elucidação de como tal efeito beneficia a terapêutica tem sido objetivo de inúmeros estudos em instituições respeitadas em todo o mundo. Vários pesquisadores acreditam que o discernimento dos fatores psicosociais, incluindo a relação médico-paciente e a expectativa depositada no tratamento, de suma importância para os resultados induzidos pelo efeito placebo. A resposta diante à expectativa parece ser a principal força por trás deste efeito e examinar as alterações na expectativa dos participantes de experimentos clínicos tornou-se uma forma bastante comum de estudo. Uma das metodologias mais utilizadas, por exemplo, consiste em passar informações errôneas aos participantes. Administrar medicamentos placebo a um grupo de indivíduos afirmando ser uma droga e, para outro grupo, administrar uma droga afirmando ser placebo, é uma das técnicas de manipulação de expectativas diante do tratamento mais encontradas na literatura científica. O grande problema desse tipo de experimento é ir de encontro aos princípios éticos, violando o direito das pessoas que participam de experimentos clínicos de decidir participar desde que estejam cientes de todas as informações relevantes. Contudo, acredita-se que o estudo de manipulação das expectativas seja fundamental para o entendimento dos mecanismos do efeito placebo de modo que, se todas as informações forem dadas aos indivíduos participantes, os resultados podem ser tendenciosos. Este artigo focaliza este ponto fundamental da metodologia envolvida nestes estudos, o que é importantíssimo em tempos de tantos debates sobre a ética experimental. Autores: Franklin G. Miller, David Wendler, Leora C Swartzman - Departament of Clinical Bioethics, National Institutes of Health, Bethesda, Maryland, USA. Nota da redação: Existem duas linhas de pensamento no que se refere aos estudos que manipulam a expectativa dos participantes: uma acredita que, para o bem da Ciência, o estudo deve se sobrepor à ética, ou seja, o direito individual é fator menor diante do bem que tais estudos podem trazer à humanidade; outra linha crê que uma mudança na forma dos estudos de manipulação das expectativas se faz necessária, ou seja, os pacientes devem saber que informações erradas poderão ser aplicadas no experimento, uma vez que o direito individual é inviolável. Referência: Deception in Research on the Placebo Effect. PLoS Medicine - www.plosmedicine.org - September 2005, Volume 2, Issue 9, e262.