Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Edição de Outubro de 2005 · Nº 63

Fitoterapia - uma alternativa à medicina tradicional

Há séculos as plantas vêm sendo utilizadas na medicina popular caseira para tratamento dos mais diversos males, dentre eles, a dor. Estima-se que 25% dos US$ 8 bilhões de faturamento da indústria farmacêutica nacional sejam originados de medicamentos derivados de plantas

Há séculos as plantas vêm sendo utilizadas na medicina popular caseira para tratamento dos mais diversos males, dentre eles, a dor. Estima-se que 25% dos US$ 8 bilhões de faturamento da indústria farmacêutica nacional sejam originados de medicamentos derivados de plantas. Entretanto, embora 1100 espécies vegetais brasileiras tenham sido avaliadas quanto às propriedades medicinais, sabe-se que apenas 8% do total da flora do país foram estudados em busca de compostos bioativos e potenciais elementos terapêuticos. Das 1100 espécies investigadas, 590 foram registradas no Ministério da Saúde para comercialização. Segundo a resolução da Diretoria Colegiada no. 48/2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, “os fitoterápicos são medicamentos preparados exclusivamente com plantas ou partes de plantas medicinais (raízes, cascas, folhas, flores, frutos ou sementes), que possuem propriedades reconhecidas de cura, prevenção, diagnóstico ou tratamento sintomático de doenças, validadas em — estudos etnofarmacológicos, documentações tecnocientíficas ou ensaios clínicos de fase 3, enquanto os fitofármacos são substâncias extraídas de plantas, que apresentam atividade farmacológica, podendo ter aplicação terapêutica”.

Os fitoterápicos e os fitofármacos são responsáveis por 25% dos receituários médicos nos países desenvolvidos e cerca de 80% nos países em desenvolvimento. Outras estimativas revelam que o mercado mundial de produtos farmacêuticos movimenta cerca de US$ 320 bilhões ao ano, dos quais US$ 20 bilhões são originados de substâncias derivadas de plantas

A magnitude da biodiversidade brasileira não é conhecida com precisão devido à sua complexidade, estimando-se a existência de mais de dois milhões de espécies distintas de plantas, animais e microorganismos. O Brasil é o país com a maior diversidade genética vegetal do mundo, contando com mais de 55000 espécies catalogadas de um total estimado entre 350000 e 550000. Essas plantas são fontes importantes de produtos naturais biologicamente ativos, muitos dos quais se constituem em modelos para a síntese de um grande número de fármacos. Muitos são analgésicos usados especialmente para tratamento da dor crônica e, em alguns casos, são mais potentes que muitos fármacos disponíveis no mercado e usados na terapêutica tradicional. O ácido acetilsalisílico, que recentemente celebrou 100 anos, foi um dos primeiros produtos com estrutura química modificada obtido diretamente de produto natural.

Pesquisadores da área de produtos naturais mostram-se impressionados pelo fato desses produtos encontrados na natureza revelarem uma gama quase inacreditável de diversidade em termos de estrutura e de propriedades físico-químicas e biológicas. Apesar do aumento de estudos nessa área, os dados disponíveis revelam que, das 250000 espécies de plantas existentes, apenas 15 a 17% das plantas foram estudadas quanto ao seu potencial medicinal.

A partir do final do século XIX, os avanços na química orgânica possibilitaram modificar a estrutura dos produtos naturais, tendo em vista um aumento na atividade ou seletividade e a redução dos efeitos colaterais ou toxicidade. Recentemente, muitas plantas utilizadas na medicina popular têm sido investigadas com o objetivo de se obter substâncias com potencial terapêutico que possam ser sintetizadas em indústrias. As indústrias farmacêuticas têm comercializado princípios ativos isolados das plantas na forma de comprimidos, cápsulas e pomadas. No entanto, o mesmo efeito terapêutico pode ser obtido através de preparações caseiras como chás, pós e tinturas.

Apesar disso, a população deve ser esclarecida quanto ao conceito errôneo de que as plantas são remédios naturais e, portanto, livre de riscos e efeitos colaterais. Para evitar o uso inadequado das plantas, a Organização Mundial de Saúde (OMS)

não só reconhece, como também estimula, o uso de plantas medicinais pela população de países pobres, embora recomende cuidados especiais no seu uso através da distribuição de manuais para orientar estudos científicos que confirmem a segurança e eficácia, cabendo aos pesquisadores comprovar tais efeitos.

A utilização das plantas pela população é ampla e as plantas contribuem fortemente para o desenvolvimento de novos medicamentos. Mais ainda, além de beneficiar o mercado com a geração de receita, empregos, desenvolvimento das regiões produtoras, incentiva o desenvolvimento tecnológico no sentido de descobrir medicamentos para a cura de moléstias, o que necessita de maiores investimentos das agências de fomento nessa área de pesquisa.

* Balunas M. )., Kinghorn A. D. 2005. Drug discovery medicinal plants. Life Sciences, in press.

* Calixto et al, 2000. Naturally Occurring Antinociceptive Substances from Plants. Phytother. Res. 14, 401-418.

* Ferreira, S. H., Plantas medicinais no Brasil. Academia Brasileira de Ciências. 1998.

* McCurdy C. R., Scully S. S., 2005. Analgesic substances derived from natural products. Life Sciences, in press.

* Simões et al., 2003. Farmacognosia: da planta ao medicamento. 5º ed. Editora UFRGS.

* Yunes R. A, Calixto ). B., 2001. Plantas medicinais sob a ótica da quimica medicinal moderna. Editora Argos.

* Bióloga, Mestranda do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP.

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