
Uma historia dolorosa
Desde o início da formação das primeiras comunidades nômades, fomos guiados pela busca de satisfação de nossas necessidades mais básicas, gerando o conflito entre o homem e a natureza. Desde esses tempos remotos até os dias de hoje, a sobre
Desde o início da formação das primeiras comunidades nômades, fomos guiados pela busca de satisfação de nossas necessidades mais básicas, gerando o conflito entre o homem e a natureza. Desde esses tempos remotos até os dias de hoje, a sobrevivência humana depende da capacidade de se adaptar ao ambiente, de vencer os obstáculos impostos pela natureza e de saciar, de alguma forma, nossas necessidades. Da interface entre homem e natureza, surgem as diferentes sensações conhecidas por nosso corpo e nossa mente. Dentre todas as sensações, a dor se destaca como uma sensação marcadora de nossa luta pela sobrevivência e sucesso adaptativo. Isso se deve ao fato de que, ao contrário de outras sensações fisiológicas, a dor se refere não somente a uma estimulação física de nosso organismo, mas também emocional, sendo referida, muitas vezes, como lesão ou como sofrimento. Devido à importância que ela assume em nossa vida e os reflexos que causa, a dor vem sendo estudada desde os tempos remotos, e ainda hoje se mostra de forma misteriosa. É fato que encontramos sinais da pesquisa por esse assunto desde as primeiras civilizações, relatada por pinturas rupestres sobre a dor física e sofrimento do homem primitivo; os primeiros textos medicinais egípcios descrevendo a sintomatologia dolorosa como consequência de demônios assombrando a alma humana; filósofos gregos como Platão discutindo sobre a origem emocional da dor; pensadores iluministas como Rene Descartes elucubrando sobre como nosso corpo detecta e reconhece a dor.
Na era moderna da experimentação, noções mais precisas da anatomia humana permitiram os pesquisadores desvendar as vias de transmissão da dor: Maximilian von Frey descrevendo a capacidade da pele em detectar diferentes modalidades e intensidades de estímulos (inócuos e dolorosos); Titchener e Goldscheider descrevendo as primeiras noções de um nociceptor; Charles Sherrington e seu tratado descrevendo a capacidade do sistema nervoso central em transmitir, integrar e interpretar estímulos periféricos, até Sherrington apadrinhando as primeiras noções da existência de diferentes tipos de fibras nervosas. Estas foram às bases que permitiram Wall e Melzack, em 1965, postular a primeira grande teoria moderna sobre a dor, a Teoria do Portão, no qual a medula espinhal serviria como um ponto de controle para integrar e reconhecer estímulos dolorosos, barrar a passagem desses quando necessário, estabelecendo respostas reflexas a estes ou enviando-os ao sistema nervoso central superior. Posteriormente esta teoria evolui, dando origem a Teoria da Neuromatriz: A capacidade de perceber e reagir a estímulos dolorosos depende das experiências individuais que formam nossa personalidade, e consequentemente as diferentes conexões entre neurônios de diferentes regiões do sistema nervoso central e todas as plasticidades desenvolvidas durante nossas experiências de vida. Isso desnuda a nossa frente um mapa cada vez mais complexo e elaborado da dor, mostrando como ela permeia cada aspecto de nossa vida.
Referência: Pain S. Painful progress. Nature. 2016; 535(7611):S18-9
Alerta submetido em 09/08/2016 e aceito em 09/08/2016