Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Artigo

Veneno letal de caracol marinho pode ser utilizado no tratamento da dor crônica

DOL · Dor On Line Edição 165 · Abril 2013 ⭳ Baixar em PDF

Caracóis marinhos têm uma grande diversidade de venenos, alguns de extrema potência, que conseguem ser dez mil vezes mais potentes que a morfina, sem ter as suas consequências viciantes e os seus efeitos colaterais. A investigação, publicada na revista científica Nature Communications, comprova, pela primeira vez, que um animal venenoso utiliza venenos distintos para caçar presas e defender-se de predadores. No sentido prático, este conhecimento abre caminho para a identificação de novas toxinas de venenos que atuam no sistema nervoso humano, podendo resultar em novos tratamentos para a dor crônica. O Conus geographus é um caracol altamente perigoso, tem a picada mais tóxica conhecida entre as espécies de Conus, e é responsável por mais de 30 mortes humanas conhecidas, não existindo um antiveneno para a sua picada. Segundo o estudo, os venenos de caracóis marinhos do gênero Conus englobam as estratégias mais sofisticadas de envenenamento conhecidos no reino animal, permitindo que estes pequenos e lentos animais capturem vermes, moluscos e mesmo peixes. Conhecer os venenos destes animais é importante para tentar desenvolver antídotos contra esses venenos, mas, ao mesmo tempo, permite também a descoberta de novas moléculas que podem ter aplicação farmacológica. Cada uma das espécies de caracóis marinhos Conus produz mais de 1000 conopeptidos distintos, estando muito poucos destes compostos caracterizados farmacologicamente (cerca de 0,1%) tendo como alvo uma vasta gama de proteínas de membrana celular, tipicamente com elevada potência e especificidade. Esses compostos têm grande potencial como drogas analgésicas, nomeadamente como alvo de receptores específicos da dor humana que podem ser até 10.000 vezes mais potentes que a morfina, sem as consequências viciantes da morfina e seus efeitos colaterais. Destaca-se nesse sentido o Inibidor Cav2.2 w-MVIIA (Prialt) aprovado pelo FDA nos Estados Unidos da América em 2004 sendo utilizado para tratar a dor intratável. O tratamento da dor neuropática crônica com conopeptidos pode assim estender-se a pacientes que sofram de cancro, artrite, herpes, diabetes, Alzheimer, Parkinson e AIDS. As espécies do gênero Conus existem em zonas tropicais, em águas quentes dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, podendo também encontrar-se em Cabo Verde. No Brasil, não existem estas espécies. Outros estudos têm sidos realizados em animais venenosos, como morcegos, vampiros, cobras, lagartos, cefalópodes (polvos, lulas e chocos), escorpiões e aranhas. Milhares de pessoas morrem anualmente, em nível mundial, da picada de animais venenosos, o que acentua a importância do estudo de venenos, tanto em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos. Referência: Dutertre S, Jin AH, Vetter I, Hamilton B, Sunagar K, Lavergne V, Dutertre V, Fry BG, Antunes A, Venter DJ, Alewood PF, Lewis RJ. Evolution of separate predation- and defence-evoked venoms in carnivorous cone snails. Nat Commun. 2014 5:3521.

← Voltar à edição 165