
Drogas farmacêuticas versus drogas de abuso: do prazer à dor
Buscar substâncias psicotrópicas para o alivio da dor faz parte da história da humanidade. Acredita-se que o consumo de ópio, álcool e Cannabis já ocorria de 3.000 a 4.000 anos antes de Cristo
Buscar substâncias psicotrópicas para o alivio da dor faz parte da história da humanidade. Acredita-se que o consumo de ópio, álcool e Cannabis já ocorria de 3.000 a 4.000 anos antes de Cristo. O consumo de substâncias psicoativas é provavelmente anterior a uma das mais importantes invenções humanas, a agricultura.
O fenômeno de dependência de drogas, sejam elas lícitas ou ílicitas, é algo que se prende à condição humana com diversas finalidades, desde a de apaziguar as dores, as angústias, as tristezas.
Entre as drogas lícitas é possível notar que há aquelas que não possuem utilidade médica, mas são consumidas livremente ou com algum controle. É o caso do álcool e do tabaco. Há aquelas que apesar de causarem dependência possuem indicações médicas precisas e importantes. São os calmantes, os analgésicos derivados do ópio e as anfetaminas.
O fato é que o abuso no consumo dos remédios - opioides ou comuns - tornou-se um dos maiores desafios da medicina atual. Na medida certa, eles aliviam a dor. Mas, em excesso, podem ser extremamente ameaçadores à saúde. No Brasil, uma das categorias mais usadas incorretamente é a de medicamentos contra dor de cabeça, normalmente vendidos sem receita médica. O que a maioria dos pacientes desconhece é que, quando há consumo sem orientação adequada, corre-se o risco de desenvolver a chamada cefaleia de rebote, causada justamente pela ingestão acima do recomendado de certos medicamentos.
As drogas são essencialmente venenos. A quantidade consumida determina o efeito. Uma quantidade pequena é um estimulante (acelera-o). Uma quantidade maior age como sedativo (abranda-o). Uma quantidade ainda maior age como veneno e pode matar uma pessoa. Isto é verdade para qualquer droga, e principalmente para o tylenolô. O que apenas varia a quantidade necessária para alcançar o efeito desejado.
Remédios como benzodiazepínicos (tranquilizantes), analgésicos opioides e anfetaminas (como os inibidores de apetite) estão entre os mais usados para esse fim em doses acima ou para fins diferentes do recomendado. Muitos são de tarja preta, mas podem ser comprados na internet, contrabandeados ou falsificados.
O uso de analgésicos em longo prazo pode levar à dependência física. O corpo adapta-se à presença da substância e se uma pessoa parar de tomar a droga abruptamente, os sintomas de abstinência ocorrem; ou o corpo pode acumular uma tolerância à droga, o que significa que será necessário tomar doses mais altas para se conseguir os mesmos efeitos.
Como todas as drogas, os analgésicos simplesmente mascaram a dor. Não “curam” nada. Alguém que tenta continuamente atenuar a dor pode encontrar-se a tomar doses cada vez mais altas — até descobrir que ele não consegue passar o dia sem a droga.
Muitas drogas têm outra dependência, elas afetam diretamente a mente. Elas podem distorcer a percepção do consumidor do que está a ocorrer ao seu redor. Como resultado, as ações da pessoa podem ser estranhas, irracionais, inapropriadas e mesmo destrutivas.
As drogas bloqueiam todas as sensações, tanto as sensações desejáveis como as indesejáveis. Portanto, enquanto oferecem ajuda em curto prazo em aliviar a dor, também destroem a capacidade e o estado de alerta e obscurecem a pensatividade.
Os medicamentos são drogas que têm a intenção de acelerar ou retardar ou mudar algo sobre a maneira como o seu corpo trabalha, tentam fazê-lo trabalhar melhor. Muitas vezes, eles são necessários. Mas eles continuam a serem drogas: eles atuam como estimulantes ou sedativos, e demasiados podem matá-lo. Por isso se você não toma
medicamentos como devem ser usados, eles podem ser tão perigosos como as drogas ilícitas.
Dados recentes dos EUA, publicados no USA Today, mostram que drogas farmacêuticas (prescritas ou não) são cada vez mais usadas como drogas de abuso, e que causam mais mortes que as drogas ilícitas. Cerca de 120.000 americanos por ano recorrem a emergências médicas devido a overdoses desses analgésicos. E a taxa de mortalidade devido aos mesmos é tão alta nas áreas urbanas quanto nas rurais, ao contrário do que acontece com as drogas ilícitas, que causam muito mais estrago nas áreas urbanas.
Apesar da preocupação das autoridades americanas com o abuso de analgésicos opioides os EUA não parecem preocupados em reprimir a produção. Por outro lado reprimem os produtores sul-americanos de drogas ilícitas, com alto custo social para as populações locais. Do mesmo modo psicoativos farmacêuticos como as anfetaminas e os ansiolíticos continuam sendo legalmente produzidos.
No Brasil o problema do alto consumo de anfetaminas é conhecido, somos o terceiro maior consumidor do mundo, segundo relatório da ONU. O ansiolítico Rivotril é o segundo remédio mais vendido no país.
É preciso acabar com a ilusão de que pílulas aliviam toda e qualquer dor. Contra as dores da alma, elas nada podem fazer. Alguns incômodos nascem na mente e se manifestam no corpo. Nesses casos, os comprimidos podem ajudar. Mas a causa da dor vai continuar onde sempre esteve. Corpo e mente funcionam juntos. Eles têm limites. Não passam incólumes em caso de sobrecarga.
* PARKER, R. G. 1993. Corpos, Prazeres e Paixões. São Paulo: Editora Best Seller.
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* Pós-doutoranda do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP








