Boletim Científico de Atualização em DorISSN 2446-6670
Divulgação Científica

Verdade ou ilusão?

Em 1938, o químico suíço Albert Hofmann sintetizou pela primeira vez a dietilamida do ácido lisérgico, mais conhecida como LSD. O objetivo do Dr. Hofmann era criar uma substância que reduzisse o sangramento no pós-parto; mal sabia o cientis

DOL · Dor On Line Edição 243 · Outubro 2020 ⭳ Baixar em PDF

Em 1938, o químico suíço Albert Hofmann sintetizou pela primeira vez a dietilamida do ácido lisérgico, mais conhecida como LSD. O objetivo do Dr. Hofmann era criar uma substância que reduzisse o sangramento no pós-parto; mal sabia o cientista que havia produzido, na verdade, um dos alucinógenos mais potentes do mundo. Após os primeiros testes feitos com LSD em animais de laboratório, ninguém deu muita importância à substância, que ficou esquecida pelos próximos cinco anos. Movido por aquilo que chamou de um “pressentimento peculiar”, o Dr. Hofmann voltou a investigar o LSD em 1943, intoxicando-se acidentalmente e experimentando os efeitos psicodélicos da droga. Intrigado, resolveu testar em si mesmo uma pequena dose da substância, vivenciando os efeitos com uma intensidade ainda maior e gerando novo interesse sobre a farmacologia do LSD. Embora mais conhecido por seu uso recreativo em raves e festivais de música eletrônica, pesquisas realizadas nas décadas de 1960 e 1970 sugerem que o LSD poderia ser utilizado no tratamento da dor. Os estudos foram abandonados em função dos efeitos alucinógenos relatados pelos pacientes. Recentemente, pesquisadores dos Países Baixos decidiram resgatar o potencial analgésico do LSD em um estudo realizado com voluntários saudáveis que tinham experiências prévias com psicodélicos. Cada participante foi submetido a um teste para avaliação do limiar de dor, que consistia em mergulhar a mão em água gelada (3°C) pelo maior tempo possível. Quando os participantes fizeram uso de vinte microgramas de LSD

(uma dose cinquenta mil vezes menor que um grama!), conseguiram permanecer mais tempo com a mão imersa, indicando maior tolerância à dor. Avaliações subjetivas também demonstraram que os participantes sob efeito do LSD em dose baixa consideraram o teste menos doloroso e menos desagradável. A dose utilizada não produziu efeitos alucinógenos nem comprometeu a função cognitiva, embora tenha produzido leves efeitos de despersonalização e desrealização, mas que não comprometiam atividades do dia a dia. Novos estudos ainda vão determinar se o LSD é seguro e em que dose pode ser usado para o tratamento da dor. Enquanto isso não acontece, continue usando os analgésicos convencionais e nunca faça uso de medicamentos sem prescrição médica! Referência: Ramaekers JG, Hutten N, Mason NL, et al. A low dose of lysergic acid diethylamide decreases pain perception in healthy volunteers [published online ahead of print, 2020 Aug 25]. J Psychopharmacol. 2020;269881120940937. doi:10.1177/0269881120940937 Alerta submetido em 10/09/2020 e aceito em 09/10/2020. Escrito por Pedro Santana Sales Lauria.

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