
Vidas sem dor
A analgesia congênita é uma doença rara que faz o indivíduo portador não ter sensibilidade à dor. Trata-se de um distúrbio genético que afeta menos de uma em um milhão de pessoas. Assim, seus portadores não percebem alterações de temperatura e embora eles sejam sensíveis ao tato, são incapazes de sentir dor física sendo propensos a graves lesões desde o nascimento. Devido a este fato, bebês portadores podem morder sua língua e seus dedos, ou se queimar sem perceberem. Alguns pais colocam óculos protetores, capacetes e meias nas mãos das crianças portadoras para protegê-las. Vários casos de febre ao ano são comuns em decorrência de infecções que não chegam a serem diagnosticadas e múltiplas lesões ortopédicas, inclusive fraturas, luxações e deformidades ósseas. Geralmente há irritabilidade e hiperatividade associadas. Em alguns tipos de analgesia congênita há alteração na sudorese e retardo mental. As causas da analgesia congênita ainda não foram totalmente esclarecidas. Mas, deduz-se que seja devido a uma má formação dos neurônios motores e sensitivos. O tratamento para a analgesia congênita não é específico, pois esta doença não tem cura. O indivíduo deverá ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar. Para ilustrar o quanto a dor é essencial para o funcionamento fisiológico do organismo, um portador de analgesia congênita deu o seguinte depoimento: "A primeira vez que ficou claro para os meus pais que algo estava errado foi quando eu tinha apenas cinco meses de vida. Eu comecei a mastigar minha língua à medida que meus dentes nasciam. Meus pais me levaram a um pediatra, onde passei por uma bateria de exames. Primeiro, acenderam um isqueiro na sola do meu pé e esperaram que se formasse uma bolha na pele. Logo que perceberam que eu não reagia, começaram a espetar agulhas nas minhas costas. Como eu novamente não respondi, chegaram à conclusão que eu sofria de analgesia congênita. A essa altura, eu já havia mastigado cerca de um quarto da minha língua. No início da minha infância, eu faltei muito à escola por causa de lesões e doenças. Certa vez, acho que num rinque de patinação, quebrei a minha perna, mas não me lembro dos detalhes. As pessoas apontavam para mim porque as minhas calças estavam cobertas de sangue da área em que o osso saiu. Depois disso, fui proibido de patinar até que fosse bem mais velho. O negócio é que, no caso do nosso problema, muitas pessoas que nos veem deduzem que somos saudáveis. Mas elas não têm ideia de que o meu corpo pode parar de funcionar a qualquer momento, que ele está todo machucado. Eu tenho artrite severa nas minhas juntas. Não é dolorido - eu não sinto nenhuma dor -, é apenas um incômodo. Mas às vezes é difícil andar. A sensação é de pressão, como se minhas juntas estivessem latejando. Alguns dias isso me deixa mal-humorado. Isso limita a minha mobilidade. Quanto aos médicos, acho que eles entendem o meu problema. Eles só não entendem o componente humano disso - a psicologia do que pode acontecer quando você cresce sem conseguir experimentar a dor”. Referências e fontes: NASCIMENTO FP; FUJIKI EN; FUKUSHIMA WY; WAISBERG G; FURLAN C; GRACITELLI M; TARDINI R; MILANI C. Complicações osteoarticulares da analgesia congênita. Acesso em Junho, 2012. http://www.tuasaude.com/analgesia-congenita/ http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120717_americano_semdor_pai.shtml