
O papel da imprensa como fiscalizador: indo de encontro às necessidades da população
Alguns dias atrás foi divulgado pela imprensa que um conhecido pesquisador na área de dor e analgesia havia sido acusado de fabricar grande parte dos resultados apresentados por suas pesquisas, muitos deles financiados por empresas farmacêuticas
Alguns dias atrás foi divulgado pela imprensa que um conhecido pesquisador na área de dor e analgesia havia sido acusado de fabricar grande parte dos resultados apresentados por suas pesquisas, muitos deles financiados por empresas farmacêuticas. O fato em questão causou uma comoção geral, levando periódicos de renome a publicarem cartas de seu corpo editorial manifestando sua indignação, além do comunicado da instituição onde o cientista trabalhava de que o mesmo se encontrava suspenso de seu quadro de funcionários pelos próximos 10 anos. Somando-se a isto, algumas das empresas que o contrataram como consultor ou pesquisador procuraram justificar alguns de seus dados ou preferiram manter silêncio sobre o caso.
O interessante nesta história é que o pesquisador havia apresentado resultados sobre os efeitos de alguns inibidores seletivos da ciclooxigenase-2 (COX-2), os quais se mostravam bastante favoráveis a esses medicamentos - e, porque não dizer, às empresas que os produziam. A opinião pública, no entanto, se dividiu em duas vertentes: uma, mais “acadêmica” por assim dizer, se mostrando indignada com a imensa falta de ética do cientista, que apresentava dados não reais que certamente haviam sido base e referência para trabalhos e estudos realizados em outros lugares; e outra, mais pragmática, que afirma que seus dados desonestos favoreciam empresas que fabricavam os inibidores de COX-2 (as quais provavelmente lhe davam algumas vantagens pessoais). Inclusive, os efeitos colaterais causados por esses medicamentos têm sido frequentemente comentados nestes últimos tempos devido à sua relação com o aumento de risco de problemas cardiovasculares (veja mais sobre o assunto “inibidores seletivos da COX-2" em nosso Baú).
De uma forma ou de outra, o que presenciamos a partir de fatos como esse é um verdadeiro convite ao público para manifestar sua opinião sobre como o trabalho - muitas vezes não reconhecido - dos pesquisadores pode, de fato, influenciar diretamente na vida da população em geral.
Nesse sentido, o papel da imprensa e da mídia é fundamental. A questão da saúde pública sempre foi uma das maiores preocupações de uma nação, de modo que a boa informação da população sobre fatos que podem ajudá-la a manter uma boa qualidade de vida é importante. Assim, a mídia deve ser uma aliada quando pensamos de uma maneira geral. Infelizmente nem sempre vemos esse papel vigilante da imprensa ser executado. Tomemos novamente como exemplo o caso dos inibidores seletivos da COX-2 e os efeitos cardiovasculares indesejados causados pelo seu uso não apenas por longo tempo, mas também por curtos períodos, como já mostrado e comentado diversas vezes no DOL. É fato que um dos medicamentos mais receitados pelos profissionais da saúde para tratamento de pequenas e médias dores, antes de sua retirada do mercado, era o VioxxB, produzido pela empresa Merk Sharp & Dome. O que se viu imediatamente após a decisão da ANVISA, agência que regula os medicamentos no Brasil, foram inúmeras reportagens sobre o assunto, comentários em diversos meios de comunicação... e só. Sem levarmos em conta os próprios profissionais da saúde que continuaram a prescrever outros inibidores da COX-2, fechando os olhos para, exatamente, os mesmos riscos de acontecerem os mesmos problemas causados pelo Vioxx9. E a população achou que estava tudo resolvido. Aí chegamos ao ponto crucial da questão: na realidade, não está tudo resolvido. O problema continua, sem sombra de dúvidas. Mas o que pode ser feito para mudar o quadro?
Em certos países, questões semelhantes são encaradas de outra maneira. Nos Estados Unidos, por exemplo, a imprensa deixou de ser um meio informativo apenas, para ser também um meio fiscalizador bastante ativo. Como? Informando massivamente a população sobre o que pode acontecer se este ou aquele medicamento for utilizado;
mostrando que há, sim, base científica para que cuidados adicionais sejam tomados ao se utilizarem esses medicamentos; que os pacientes que usarem medicamentos alternativos aos proibidos devem estar alertas e reportarem a seus médicos sintomas incomuns que aparecerem após o início do tratamento, como forma de se acompanhar os casos e, mais importante, fornecer um meio para que, de tempos em tempos, possa-se revisar esses prontuários em busca de novos dados sobre a segurança deste ou daquele medicamento. Em suma, a população é praticamente convocada a fazer parte dos esforços dos especialistas de procurarem os melhores meios de se chegar o mais próximo possível de um sistema de saúde perfeito. Embora pareça uma proposta inviável, em alguns países essa atitude tem funcionado.
Um comercial de TV americano sobre o celecoxib (vendido sob o nome de celebrexQ) a princípio informava, em letras garrafais e de maneira bem fácil de compreender, quais os possíveis sintomas causados pelo seu uso, e, logo após, em letras “mais garrafais” ainda, pedia aos pacientes para procurarem seu médico caso algum efeito desconhecido aparecesse. Ainda, considerando a quantidade de vezes que o anúncio era veiculado, provavelmente um número bastante relevante de pessoas o viram. Em outras palavras, a imprensa americana está sendo bastante vigilante no caso. Seu papel passa a ter uma importância tremenda para a saúde geral da população - ou saúde pública. Isso acontece não somente com os inibidores de COX-2, mas em outros casos também, como de antidepressivos ou anticonvulsivantes utilizados para controle da dor. Ainda, ao final de cada comercial, em letras não miúdas, mas bem grandes, sempre há um endereço para contato e o convite para que o espectador possa conversar com a própria fabricante dos fármacos em questão. Resumindo, existe uma preocupação por parte da imprensa em atuar como um verdadeiro serviço de utilidade e, certamente, cuidado público. Os benefícios são inúmeros, o que aumenta a credibilidade dos serviços, dos fabricantes de medicamentos e, adicionalmente, dos pesquisadores
Contudo, fatos como o citado no início deste Editorial (e em nosso Alertando dessa edição) contribuem exatamente para o contrário, levantando dúvidas sobre a veracidade de trabalhos científicos publicados, causando constrangimentos e fazendo com que muitos passem a ser mal rotulados por causa da arrogância, egoísmo e desonestidade de poucos. E, nesse sentido, a própria imprensa pode auxiliar a reverter esse quadro. Em alguns países esse é um esforço já em andamento
* Mestre e Doutor em Farmacologia, Cirurgião Dentista e Pesquisador, atuando na área de Farmacologia da Dor, Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial







