
Há risco de uma epidemia dos opioides na Europa?
Os opioides são importantes agentes no tratamento de dor aguda, perioperatória e crônica grave. Além desse efeito analgésico desejado, eles podem gerar alguns efeitos colaterais como depressão respiratória, náuseas e vômitos
Os opioides são importantes agentes no tratamento de dor aguda, perioperatória e crônica grave1. Além desse efeito analgésico desejado, eles podem gerar alguns efeitos colaterais como depressão respiratória, náuseas e vômitos, constipação, tolerância e dependência. A tolerância se apresenta como um ciclo vicioso de aumento da dose para atingir o mesmo efeito, e a dependência está relacionada a mortes prematuras e criminalidade, gerando um grande problema mundial atualmente2. A eficácia dos opioides foi aprimorada nas décadas de 1970 e 1980, possibilitando o desenvolvimento de fármacos mais seletivos e potentes, como o fentanil e a heroína, contribuindo com efeitos benéficos e prejudiciais para a sociedade e a medicina1. Os opioides sintéticos representam um risco elevado de intoxicação para os consumidores. Desde 2009, 57 novos opioides sintéticos foram detectados no mercado de drogas da Europa - incluindo oito relatados pela primeira vez em 2019 (dois derivados de fentanil e seis não derivados do fentanil)3. A heroína continua sendo o opioide mais usado na Europa, apesar dos indicadores de uso sugerirem um envelhecimento dos usuários, com baixas taxas de iniciação. Entretanto, outros opioides como metadona, buprenorfina, tramadol e derivados de fentanil também estão disponíveis no mercado ilícito. Dados do Centro Europeu de Monitoramento de Drogas e Dependentes Químicos - European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction (EMCDDA), que cobre os Países-Membros da União Europeia (UE), Noruega e Turquia, mostram que a prevalência do uso de opioides de alto risco entre adultos (15-64 anos) é estimada em 0,4% da população da UE, equivalente a 1,3 milhões de usuários em 20183. Além disso, em 2018 o uso de opioides foi relatado por 143.000 pessoas como o principal motivo para admissão em tratamento especializado de toxicodependência, representando 34% de todas as admissões. Já o número de pessoas admitidas pela primeira vez pelo uso primário de heroína diminuiu em 18 dos 29 países com dados disponíveis entre 2017 e 20183. Os opioides, sozinhos ou em combinação com outras substâncias, desempenham um papel importante nas mortes por overdose de drogas e são usados como um dos indicadores para a avaliação da extensão dos problemas relacionados aos opioides4. Estima-se que pelo menos 8.300 mortes por overdose envolvendo drogas ilícitas, ocorreram na UE em 2018, número considerado estável quando comparado com 20173. Apesar de esses dados incluírem mortes associadas a outras drogas ilícitas, os opioides foram notificados em aproximadamente 78% das ocorrências, frequentemente em combinação com outras substâncias4. Há um predomínio no norte da Europa - Áustria, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Irlanda, Luxemburgo, Noruega, Suécia e Reino Unido - e também na Bulgária, Croácia e Romênia, aonde chega a 9 casos envolvendo alguma forma de opioide em cada 10 mortes por overdose3.
O fentanil e os análogos do fentanil, desviados do uso médico ou fabricados ilegalmente, têm um papel relativamente menor nas mortes e intoxicações na UE, exceto em alguns países bálticos5. Assim como os opioides usados para o alívio da dor, que também não são relevantes. Entretanto, há uma preocupação de que outros opioides podem desempenhar um papel mais importante no número mortes por overdose, e, provavelmente, os sistemas atuais de notificação não são sensíveis a estas mudanças4. A subnotificação é um problema em alguns países da UE, no entanto, a taxa de mortalidade por overdoses em 2018 foi estimada em 22,3 mortes por milhão de população com idade entre 15–64 anos4, número bem inferior ao encontrados nos Estados Unidos (EUA), com 67.367 mortes por overdose de drogas6, com uma taxa ajustada à idade de 207 por milhão, ou seja, nove vezes o valor encontrado na UE4. Dados mais recentes dos EUA apontam que em 2019 houve 70.630 mortes por overdose de drogas, com uma taxa ajustada por idade de 216 por milhão, um aumento de mais de 4% em relação a 20187. Os opioides estavam envolvidos em 49.860 (70,6%) dessas mortes, e os opioides sintéticos em 36.359 casos, o que equivale a aproximadamente 100 mortes por dia8. De 1999 a 2019, quase 500.000 pessoas morreram por overdose envolvendo qualquer opioide (prescritos e também ilícitos) nos EUA9. Durante este período, houve tendências distintas de uso: a primeira envolvendo overdose por opioides prescritos (naturais e semissintéticos e metadona), consequência do aumento de prescrição na década de 199010; a segunda devido à overdose de heroína, com início em 201011; e a terceira causada por overdose de opioides sintéticos, particularmente aqueles envolvendo fentanil fabricado ilegalmente, presente desde 201312. Há uma epidemia de opioides nos EUA e já é considerada uma crise nacional de saúde pública. O enfrentamento desta epidemia requer abordagens envolvendo o estigma associado aos distúrbios do uso de opioides, bem como melhorar o acesso a opções de tratamento eficazes, especificamente metadona e buprenorfina, e reduzir as fatalidades por overdose de opioides com distribuição do antagonista opioide e agente reversor da overdose (naloxona)13. Apesar de apresentar números bem inferiores aos EUA, o consumo de drogas é uma causa reconhecida de mortalidade evitável entre os adultos europeus. Em geral, na UE, as pessoas que usam opioides têm de 5 a 10 vezes mais probabilidade de morrer do que pessoas da mesma idade e sexo. A overdose é uma das causas mais frequentes de morte, porém outras causas de morte indiretamente relacionadas ao uso de drogas, como HIV/AIDS e hepatites virais, violência (homicídio e suicídio), também são importantes causas de mortalidade3. Devido a pandemia da COVID-19 em 2020, foram necessárias várias medidas para conter a transmissão do vírus em toda a Europa. Tais medidas podem gerar consequências econômicas e sociais de médio em longo prazo, inclusive implicações na área das drogas3. O impacto da atual pandemia na saúde
mental, juntamente com os problemas econômicos, podem aumentar as preocupações de riscos futuros nesta área, devido a tendência dos problemas relacionados aos opioides estarem associados a períodos de ruptura social e dificuldades econômicas14. Mesmo com dados considerados estáveis em relação ao uso de opioides, é preciso considerar a subnotificação dos casos e também a possibilidade do uso de novos opioides não notificados. Além disso, há o risco de aumento do consumo provocado pela pandemia da COVID-19. Por isso, é necessário planejamento de ações para o enfrentamento desse problema, como: intervenções farmacológicas, comportamentais e psicossociais; reabilitação residencial; serviços de apoio à reintegração; e intervenções de redução de danos3.
Referências: 1 - Corder G, Castro DC, Bruchas MR, Scherrer G. Endogenous and Exogenous Opioids in Pain. Annu Rev Neurosci. 2018; 41:453-473. doi:10.1146/annurev-neuro-080317-061522. 2 - Azzam AAH, McDonald J, Lambert DG. Hot topics in opioid pharmacology: mixed and biased opioids. Br J Anaesth. 2019;122(6):e136- e145. doi:10.1016/j.bja.2019.03.006. 3 - European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction (2020), European Drug Report 2020: Trends and Developments, Publications Office of the European Union, Luxembourg. 4 - Seyler T, Giraudon I, Noor A, Mounteney J, Griffiths P. Is Europe facing an opioid epidemic: What does European monitoring data tell us?. Eur J Pain. 2021;25(5):1072-1080. doi:10.1002/ejp.1728. 5 - Mounteney J, Griffiths P, Sedefov R, Evans-Brown M. Fentanils: a serious threat to public health. Addiction. 2019;114(5):783-785. doi:10.1111/add.14542. 6 - Wilson N, Kariisa M, Seth P, Smith H 4th, Davis NL. Drug and Opioid- Involved Overdose Deaths - United States, 2017-2018. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2020;69(11):290-297. Published 2020 Mar 20. doi:10.15585/mmwr.mm6911a4. 7 - Hedegaard H, Miniño AM, Warner M. Drug overdose deaths in the United States, 1999–2019. NCHS Data Brief, no 394. Hyattsville, MD: National Center for Health Statistics. 2020. 8 - Mattson CL, Tanz LJ, Quinn K, Kariisa M, Patel P, Davis NL. Trends and Geographic Patterns in Drug and Synthetic Opioid Overdose Deaths — United States, 2013–2019. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2021; 70:202–207. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.mm7006a4external icon. 9 - Wide-ranging online data for epidemiologic research (WONDER). Atlanta, GA: CDC, National Center for Health Statistics; 2020. Disponível em http://wonder.cdc.gov.
10 - Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Vital signs: overdoses of prescription opioid pain relievers---United States, 1999--2008. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2011;60(43):1487-1492. 11 - Rudd RA, Paulozzi LJ, Bauer MJ, et al. Increases in heroin overdose deaths - 28 States, 2010 to 2012. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2014;63(39):849-854. 12 - Gladden RM, Martinez P, Seth P. Fentanyl Law Enforcement Submissions and Increases in Synthetic Opioid-Involved Overdose Deaths - 27 States, 2013-2014. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2016;65(33):837-843. Published 2016 Aug 26. doi:10.15585/mmwr.mm6533a2. 13 - Lyden J, Binswanger IA. The United States opioid epidemic. Semin Perinatol. 2019;43(3):123-131. doi:10.1053/j.semperi.2019.01.001. 14- Chisholm-Burns MA, Spivey CA, Sherwin E, Wheeler J, Hohmeier K. The opioid crisis: Origins, trends, policies, and the roles of pharmacists. Am J Health Syst Pharm. 2019;76(7):424-435. doi:10.1093/ajhp/zxy089.
Referências adicionais: Para saber mais sobre o uso de opioides nos Estados Unidos e Brasil, acesse
* Alunos de mestrado - UnB - Editorial produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia - UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.
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