
A relação entre dor e saúde do trabalhador
O impacto do trabalho sobre a saúde tem sido investigado com regularidade em diversas categorias profissionais. A maneira como os profissionais executam ou a forma como lhes é imposto o trabalho pode desencadear doenças ocupacionais, desgastes, absenteísmos e
O impacto do trabalho sobre a saúde tem sido investigado com regularidade em diversas categorias profissionais. A maneira como os profissionais executam ou a forma como lhes é imposto o trabalho pode desencadear doenças ocupacionais, desgastes, absenteísmos e acidentes que geram custos financeiros e diminuição da produtividade, qualidade e segurança da assistência[1].Quando o processo laboral é realizado de maneira extenuante, sem pausas, com movimentos repetitivos, estereotipados e posturas incorretas, surgem sintomas sem entidade clínica específica, mas com aspectos relacionados à dor, à parestesia, à fadiga, à perda de força e à amplitude de movimento[4]. Os distúrbios musculoesqueléticos determinam um conjunto de sinais e sintomas concomitantes ou não (dor, desconforto, parestesia, sensação de peso, fadiga, limitação do movimento e incapacidade para o trabalho) que podem começar de forma insidiosa e evoluir rapidamente, caso não ocorram mudanças nas condições de trabalho[5]. Eles têm se constituído em importante problema de saúde pública, em vários países industrializados, e acometem trabalhadores de diversas profissões, dentre elas, aqueles envolvidos no cuidado da saúde da população. A dor lombar ou lombalgia está localizada na região lombar, entre o último arco costal e a prega glútea, afeta pessoas de todas as idades e corresponde a cerca de 90 a 95% dos casos diagnosticados na população mundial[2] [13]. Enquadra-se em um agravo ocupacional que se constitui um problema de saúde pública mundial devido à sua alta prevalência. Os fatores relacionados à dor lombar são múltiplos e os riscos profissionais envolvem a visão do contexto do trabalho, das demandas físicas, dos fatores ergonômicos, psicossociais e das formas de organização e execução das tarefas. Sobrecarga de trabalho de caráter fisiológico e psíquico, fadiga e mau humor relacionam-se com a dor. Altas demandas físicas ou mecânicas estressam e fadigam a musculatura e podem iniciar um processo de dor pelas posições prolongadas e movimentos repetitivos. A relação entre a fadiga e a dor parece abranger alterações metabólicas e estruturais que influenciam os componentes relacionados à fisiologia da dor como as glândulas basais, o tálamo, o sistema límbico e o centro cortical[4]. Somente no Distrito Federal, no ano de 2019, foi identificado um índice de absenteísmo de 11.855h de trabalho no que diz respeito a servidores da Atenção Primária afastados pela Classificação Internacional de Doenças e problemas de saúde (CID), relacionados a dor[6]. Isso representa cerca de 296 servidores afastados do trabalho por uma semana inteira. No ano de 2020, após a pandemia de COVID-19, esses números aumentaram, chegando a 13.524h de afastamentos de servidores, o que seria o equivalente a 338 servidores afastados por uma semana inteira de trabalho[6]. Com base em dados da literatura e nesses
números, podemos inferir que fatores psicossociais, como medo, ansiedade, crises de pânico, estresse e fadiga, podem influenciar a cronicidade, a frequência e a percepção da dor. A elevada prevalência de relatos de sintomas de dor e desconforto osteomuscular na região lombar, demonstra o impacto desta problemática e expressa uma influência negativa na saúde desses profissionais. [6] Na pandemia, a oferta de equipamentos de proteção individual (EPIs) inadequados, a sobrecarga de trabalho devido ao número insuficiente de profissionais e a quantidade aumentada de horas de trabalho expõe profissionais de saúde, por exemplo a equipe de enfermagem, a riscos ocupacionais e de desgaste físico e mental[7]. Nesse contexto da pandemia os profissionais de saúde estão expostos também a agravos relacionados ao uso dos EPIs, dentre eles podemos listar a cefaleia, dor atrás das orelhas e o desenvolvimento de lesões cutâneas por pressão na região da face que por consequência geram dor [8], [9], [10]. Inclusive existem artigos que tratam de possíveis medidas preventivas para proteção da pele do rosto como a utilização de tiras de hidrocolóide, assim como recomendações para tratamento das lesões [11]. Estudos avaliando a relação entre trabalho e saúde do trabalhador identificaram queixas com referências de dor na região lombar, pescoço, ombros, punhos, mãos, dedos e joelhos, que impactam na perda de capacidade de trabalho, estresse laboral, desgaste, risco de adoecimento, sofrimento no trabalho, esgotamento e redução da qualidade de vida. [1,2,3,4,5] Importante mencionar que existe uma quantidade insuficiente de dados divulgados relacionados aos afastamentos de trabalhadores da rede privada, por diversos motivos, que podem incluir, questões econômicas, medo de represálias e demissões. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúde-SP), há um envelhecimento desses trabalhadores que estão na ativa [12]. De acordo com a entidade, quase 60% estão acima de 50 anos; destes, mais de 15% tem mais de 60 anos, fator que pode ser explicado pela não realização de concursos para a pasta por muitos anos [12]. Diante disso, faz-se necessário a efetivação de políticas de promoção da saúde, com o desenvolvimento de medidas educativas e preventivas de agravos à saúde laboral, possibilitando aos indivíduos requisitos para atuar de maneira significativa frente aos fatores de risco, e dessa forma contribuir para a melhoria das condições de trabalho e qualidade de vida desses profissionais [2]. Nesse sentido é de extrema importância o investimento em ações de promoção a saúde do trabalhador com ênfase na educação em medidas preventivas [10], nos cuidados com a pele (inspeção, limpeza e hidratação) [9] e o investimento em EPIs de qualidade. Sendo assim, a dor relacionada às atividades laborais pode influenciar na qualidade de vida e do trabalho e por isso a realização de ações preventivas é importante.
Referências: (1) Magnago TS, de Lima AC, Prochnow A, Ceron MD, Tavares JP, Urbanetto Jde S. Intensity of musculoskeletal pain and (in) ability to work in nursing. Rev Lat Am Enfermagem. 2012;20(6):1125-1133. doi: 10.1590/s0104- 11692012000600015 (2) Cargnin ZA, Schneider DG, Vargas MAO, Machado RR. Non-specific low back pain and its relation to the nursing work process. Dor lombar inespecífica e sua relação com o processo de trabalho de enfermagem. Rev Lat Am Enfermagem. 2019;27: e3172. Published 2019 Oct 7. doi: 10.1590/1518-8345.2915.3172 (3) Glanzner CH, Olschowsky A, Pai DD, Tavares JP, Hoffman DA. Assessment of indicators and experiences of pain and pleasure in family health teams based on the Psychodynamics of Work. Avaliação de indicadores e vivências de prazer/sofrimento em equipes de saúde da família com o referencial da Psicodinâmica do Trabalho. Rev Gaucha Enferm. 2018;38(4): e20170098. Published 2018 Jun 7. doi: 10.1590/1983-1447.2017.04.2017-0098 (4) Cordioli Junior JR, Cordioli DFC, Gazetta CE, Silva AGD, Lourenção LG. Quality of life and osteomuscular symptoms in workers of primary health care. Rev Bras Enferm. 2020 Jul 1;73(5): e20190054. English, Portuguese. doi: 10.1590/0034-7167-2019-0054. PMID: 32609208. (5) Meira-Mascarenhas CH, Ornellas-Prado F, Henrique-Fernandes M. Dor musculoesquelética e qualidade de vida em agentes comunitários de saúde [Community health agents musculoskeletal pain and quality of life]. Rev Salud Publica (Bogota). 2012;14(4):668-680. (6) Agência Brasil (ebc.com.br) - https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/sp-tem-mais-de-600- profissionais-de-saude-afastados-devido-ao-covid-19 (acessado em 23/março/2021). (7) Soares, Cassia Baldini, Peduzzi, Marina, & Costa, Marcelo Viana da. (2020). Os trabalhadores de enfermagem na pandemia COVID-19 e as desigualdades sociais. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 54, e03599. Epub September 16, 2020.https://doi.org/10.1590/s1980-220x2020ed0203599 (8) Rapisarda, L., Trimboli, M., Fortunato, F., De Martino, A., Marsico, O., Demonte, G., Augimeri, A., Labate, A., & Gambardella, A. (2021). Facemask headache: a new nosographic entity among healthcare providers in COVID-19 era. Neurological sciences: official journal of the Italian Neurological Society and of the Italian Society of Clinical Neurophysiology, 42(4), 1267–1276. https://doi.org/10.1007/s10072-021-05075-8 (9) Moore, Z., McEvoy, N. L., Avsar, P., McEvoy, L., Curley, G., OConnor, T., Budri, A., Nugent, L., Walsh, S., Bourke, F., & Patton, D. (2021). Facial pressure injuries and the COVID-19 pandemic: skin protection care to enhance staff safety in an acute hospital setting. Journal of wound care, 30(3), 162–170. https://doi.org/10.12968/jowc.2021.30.3.162
(10) Jose, S., Cyriac, M. C., & Dhandapani, M. (2021). Health Problems and Skin Damages Caused by Personal Protective Equipment: Experience of Frontline Nurses Caring for Critical COVID-19 Patients in Intensive Care Units. Indian journal of critical care medicine: peer-reviewed, official publication of Indian Society of Critical Care Medicine, 25(2), 134–139. https://doi.org/10.5005/jp-journals-10071-23713 (11) Aguilera, S. B., De La Pena, I., Viera, M., Baum, B., Morrison, B. W., Amar, O., Beustes-Stefanelli, M., & Hall, M. (2020). The Impact of COVID-19 on the Faces of Frontline Healthcare Workers. Journal of drugs in dermatology: JDD, 19(9), 858–864. https://doi.org/10.36849/JDD.2020.10.36849/JDD.2020.5259 (12) Sindicato dos Trabalhadores Públicos do Estado de São Paulo. Com a vida não se brinca: pelo afastamento dos trabalhadores da saúde que estão no grupo de risco. sindsaudesp.org.br - http://sindsaudesp.org.br/novo/artigo.php?id=624 (acessado em 26/março/2021). (13) Maher C, Underwood M, Buchbinder R. Non-specific low back pain. Lancet. 2017 Feb 18;389(10070):736-747. doi: 10.1016/S0140-6736(16)30970-9. Epub 2016 Oct 11. PMID: 27745712.
* Alunos de mestrado - UnB - Editorial produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi- institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia - UnB e Programa de Pós- Graduação em Farmácia da UFBA.
Matérias desta edição





Massagem com óleo essencial de lavanda pode reduzir a dor neuropática
Ler mais →



