
Homeopatia versus Alopatia: diluindo opiniões
Artigo recentemente publicado no periódico The Lancet (ver referência abaixo) trouxe de volta aos debates a polêmica Terapia Homeopática versus Alopatia. O estudo, que gerou comentários tanto dos defensores quanto dos céticos em relação ao uso da Homeopatia, avaliou
Artigo recentemente publicado no periódico The Lancet (ver referência abaixo) trouxe de volta aos debates a polêmica Terapia Homeopática versus Alopatia. O estudo, que gerou comentários tanto dos defensores quanto dos céticos em relação ao uso da Homeopatia, avaliou diversos ensaios que comparavam tratamentos medicamentosos alopáticos e homeopáticos a tratamentos com placebo. O ponto fundamental do artigo foi o fato dos autores evidenciarem a ausência de diferenças significativas entre os resultados obtidos pelo tratamento homeopático e o placebo, além de afirmarem que tais trabalhos apresentavam deficiências metodológicas. A publicação do trabalho em uma revista de renome serviu para agravar ainda mais a polêmica.
De fato, e de maneira correta, é sabido que o meio acadêmico e detalhista da Ciência convencional exige comprovações segundo parâmetros rígidos de pesquisa e avaliação. Em vista disso, apesar da eficácia terapêutica da Homeopatia, esta sempre foi a tônica das discussões entre homeopatas e alopatas, ainda mais por estes dois métodos estarem fundamentados em paradigmas opostos, possuindo metodologias distintas e divergindo sobre inúmeros fatores.
Criada pelo médico alemão Christian Frederick Samuel Hahnemann, a Homeopatia clássica fundamenta-se em quatro princípios básicos: experimentação no homem são, medicamento dinamizado (uso doses mínimas), medicamento único e, o considerado o cinturão primário do conjunto de hipóteses que liga o modelo homeopático aos fenômenos experimentais, o princípio da similitude, no qual, segundo Hahnemann, para um medicamento curar um conjunto de sintomas em um indivíduo doente, deve despertar estes mesmos sintomas nos indivíduos sadios. Assim, enunciando o aforismo simília similibus curantur (semelhante cura semelhante), Hahnemann buscou confirmações práticas do mesmo, investigando relatos clínicos de médicos antigos, e acumulou vasto material que sugeria que o princípio homeopático já havia sido observado e empregado involuntária e empiricamente em diversas ocasiões da história. Entretanto, a necessidade de evidências concretas e emprego de metodologias acuradas para validação científica de métodos e preceitos ainda continua sendo o principal ponto considerado pelos críticos da Homeopatia. Foi neste detalhe que os autores do estudo se firmaram.
A ênfase dada na falta de evidências que mostrem efeitos específicos da Homeopatia é justificada por uma possível influência do contexto nos resultados. Afirmando que "a relação entre o paciente e o terapeuta pode ser uma importante via na produção de tais efeitos", o que induziria o efeito placebo, os autores sugerem que melhor seria, em estudos futuros, avaliar, sim, a influência do contexto nestes efeitos homeopáticos. Para acirrar ainda mais os debates, eles finalizam afirmando que, ao contrário desta terapia, a maioria dos ensaios alopáticos evidenciou claramente a impossibilidade dos efeitos medicamentosos terem sido causados diretamente por efeito placebo.
Por outro lado, os homeopatas se defendem afirmando que, em diversas áreas do conhecimento humano, da Física à Fisiologia Humana, assim como em centenas de medicamentos empregados pela Farmacologia clássica, podem ser encontradas confirmações dos pressupostos homeopáticos, semelhantemente às citadas por Hahnemann há mais de dois séculos. A incompreensão destes conceitos essenciais é que geraria dúvidas e mal- entendidos quanto à prática homeopática, criando os preconceitos que se incorporaram ao longo dos tempos à cultura popular, dificultando o esclarecimento desta especialidade médica secular. Além disso, “a utilização dos mesmos métodos para avaliar as duas práticas terapêuticas sempre demonstrará que a Homeopatia atua como placebo, pois a metodologia empregada pelos pesquisadores procura provar que determinados medicamentos atuam sobre determinadas doenças, que é o objetivo da Alopatia, mas não da Homeopatia, a qual
procura, através de seus medicamentos, mobilizar o doente em direção à harmonia, com melhora global e consegiente desaparecimento das doenças”, segundo o Dr. Ariovaldo Ribeiro Filho, Presidente da Associação Paulista de Homeopatia (APH), que completa dizendo que “o medicamento mobiliza e o paciente reorganiza-se atingindo a cura”.
“Querer que a Homeopatia funcione igual à Alopatia faz com que a cada seis meses apareça na imprensa mundial um trabalho que chega a essas conclusões errôneas”, diz o Dr. Ariovaldo. “Vimos insistentemente explicando isso aos pesquisadores e demonstrando, através de casos clínicos que mostram a individualidade, que a metodologia a ser empregada para avaliar a Homeopatia é totalmente distinta. A Homeopatia está na contramão desse método. É diametralmente oposta”. Assim, deve-se lembrar que a prática da Homeopatia se baseia na individualidade, ou seja, o paciente “deverá melhorar de forma integral, deverá melhorar como indivíduo, e não apenas melhorar em uma doença em períodos curtos como querem esses pesquisadores”.
De qualquer maneira, os dois lados da questão devem ser abordados. Se, de um lado, os alopatas convictos justificam suas críticas se baseando nos conceitos farmacológicos de relação droga-receptor, descartando resultados não demonstráveis cartesianamente e indo mais a fundo na questão afirmando que a Homeopatia está indo em direção oposta à Medicina moderna baseada em demonstrações científicas, os homeopatas têm o direito de defenderem sua prática, porém, lembrando que a própria intenção de reorganizar o indivíduo como um todo para que ele se cure também pode ser considerado um efeito placebo. Não seria então a Homeopatia uma indução de efeito placebo direcionada?
Enfim, o que nos resta dizer é que, seja qual for o tipo de terapia utilizada, a peça-chave de qualquer tratamento é o paciente, a quem somente interessa o resultado final, ou seja, a cura. Assim, esperando a aproximação científica da Medicina Homeopática com a Medicina Convencional, devemos torcer para que, em um futuro próximo, possamos observar e nos beneficiar de uma medicina ÚNICA, na qual o bem estar do paciente esteja acima de qualquer sentimento individualista e egocêntrico.
* Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. Shang et al., The Lancet, vol 366, August 27, 2005; 726-732.
* Teixeira, MS. Semelhante cura semelhante: o princípio de cura homeopático fundamentado pela racionalidade médica e científica. São Paulo: Editora Petrus, 1998.
* Demarque, D. Homeopatia: medicina de base experimental. 2º edição - Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 2002.
* Cirurgião-dentista, Doutorando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP.









