
A dor e os bebês pesquisas e medidas para a diminuição dos prejuízos
A experiência de dor ou a exposição repetitiva a estímulos nociceptivos no período neonatal leva à mudanças em longo prazo na circuitaria neuronal que podem ser prejudiciais ao indivíduo. A atividade anormal ou excessiva de neurônios sensoriais
A experiência de dor ou a exposição repetitiva a estímulos nociceptivos no período neonatal leva à mudanças em longo prazo na circuitaria neuronal que podem ser prejudiciais ao indivíduo. A atividade anormal ou excessiva de neurônios sensoriais em desenvolvimento, relacionada com injúria no período neonatal, pode reduzir ou alterar a capacidade de interpretar os estímulos relacionados à dor de forma apropriada. Os danos podem aparecer imediatamente ou na vida adulta. Os efeitos imediatos envolvem comportamentos de hiperreatividade geral, ansiedade e alterações na personalidade dos bebês. Ainda, pode ocorrer desenvolvimento sináptico inadequado, gerando mudanças no processo somato-sensorial que poderão ser observadas e vivenciadas na idade adulta. No entanto, para realizar o suporte de vida e fornecer condições adequadas aos bebês prematuros, muitos procedimentos invasivos e dolorosos fazem parte da rotina de tratamento. Estima-se em média de 4-6 destes procedimentos por dia e em torno de 400 se contarmos todo o período de internação.
Com o intuito de entender este processo e também evitá-lo, alguns esforços têm sido realizados por especialistas da área. Pesquisas têm sido realizadas demonstrando que o consumo de substâncias doces produz analgesia em animais e em humanos. Com efeito, soluções de sacarose melhoram parâmetros utilizados por pesquisadores para mensurar a dor em bebês - diminuindo o choro e os efeitos autonômicos de procedimentos dolorosos. O mecanismo de ação da sacarose ainda não está completamente elucidado, mas acredita-se que a substância pode interagir com o sistema opióide endógeno, induzindo assim analgesia. Confirmando esta hipótese é descrito ainda que a sacarose pode aumentar as propriedades analgésicas de opióides exógenos. Além disso, estudos experimentais em animais realizados na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) pelo grupo do Professor Norberto Cysne Coimbra demonstram o envolvimento de uma via serotoninérgica na analgesia induzida pela sacarose. Como resultado prático dos estudos, no ano 2000 a Academia Americana e a Sociedade Canadense de Pediatria passaram a recomendar o uso de sacarose como rotina durante procedimentos invasivos e dolorosos.
Também na FMRP-USP, o grupo de pesquisa clínica liderado pela Dra. Beatriz Linhares vem estudando os efeitos da sacarose em bebês. Entre outras questões, foi demonstrado que seu uso contínuo - durante múltiplos procedimentos - não acarreta prejuízos aos bebês, esclarecendo assim a dúvida quanto a possíveis efeitos adversos. Além das publicações, o trabalho também resultou em adequação e adoção de um protocolo clínico para o uso da sacarose como rotina para procedimentos invasivos e dolorosos na UTI Neonatal do Hospital das Clínicas da FMRP-USP a partir de 2008.
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* Enfermeira, Doutora em Ciências Biológicas pelo Departamento de Farmacologia da FMRP-
*+* Médica veterinária, doutoranda do Laboratório de Neuroanatomia e Neuropsicobiologia - Depto. de Farmacologia - FMRP-USP








